domingo, 10 de maio de 2009
Diário de Blog: 4 DE MAIO DE 2009
... SOURE, SEGUNDA, 4 DE MAIO DE 2009
© Francisco Weyl
"O dia de hoje é o primeiro passo da nossa História – o primeiro magnífico quadro artístico cinematográfico – a primeira “tomada” (cultural) oficial, adentro deste ciclo que é a incerteza.
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(... thesce, thesce, thesce, thesce, thesce, thesce, thesce – é assim que o homem da casa ao lado chama o seu porco…)
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Logo de manhã eu liguei a câmera e andei com ela pela casa a perguntar ao Krom, ao André e á Isabela quais eram as expectativas deles com relação ao dia de hoje, o que para eles significava este dia, o que eles esperavam encontrar pelo caminho, e eles responderam, cada um, com a sua filosofia, a qual agora – um dia depois, quando consegui finalmente me sentar á frente do portátil, com a janela escancarada para a rua, sozinho, em casa – eu, jamais, conseguiria recordar, entretanto, eu repetiria esta pergunta à noite, depois do dia decorrido, com um caderno de anotações, mas, no geral, eles me responderam de forma técnica, observaram acertos e erros e disseram esperavam pelos acontecimentos, na verdade, todos esperávamos pelos acontecimentos, afinal de contas, estamos em Soure, Marajó, e aqui, as cosias têm um tempo muito próprio, mas depois eu desenvolverei mais sobre este fenômeno, pois que agora é hora de reler alguns apontamentos, atualizando-os, com estas sobredoses de complexidades, destas pelas quais somos atravessados e nas quais mergulhamos a nossa criatividade, ou seja, no seu próprio nascedouro, a incerteza.
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Nós, os artistas temos esta liberdade antropológica para viver a vida, porque a desfazemos e a desafiamos, tal qual o ser humano se re-faz e se desafia a sai próprio e tal qual cada ser humano desafia um ao outro.
Por ser o que é, diferente.
E nesta diferença, onde cada um viva a sua vida da forma que lhe apetece viver, eu disse: da forma que lhe apetece e não das formas impostas sem que ele próprio o perceba e se perceba, ou seja: onde cada ser humano interprete a vida a partir de sua própria consciência.
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Em Soure - como no Marajó e se calhar em todos os municípios paraenses e mesmo nos municípios mais pobres do país, sim, porque Marajó tem o IDH mais baixo do mundo -, todas as ações passam necessariamente pela prefeitura.
Se você quer falar com algum gestor ou líder da sociedade, é óbvio, a prefeitura é o melhor local para este contato.
Desconfio que isto ocorre em todo o mundo, este fenômeno de migração de lideranças da sociedade civil para a “institucionalidade”.
(Entretanto, há um dado que me despertou a atenção e que se refere ao ecletismo religioso do “caboco” – expressão que tomo emprestada ao caboco Varela – marajoara: em Soure, o prefeito é evangélico e o secretário de finanças, espírita.)
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E esta institucionalidade se repete em outros setores, mas, explico: não me apetece condenar o Instituto de Artes do Pará, IAP, e outras instituições do tipo, entretanto, chateia-me o fato de instituições que se pressupõem soberbas ministrarem cursos para as populações do interior do Pará, alguns dos quais, inclusive, mestres de cultura popular, cooptando-os para um saber institucional, conferindo aos mesmos certificados para que continuem a fazer o que sempre fizeram, que é transmitir conhecimentos e saberes populares para os seus descendentes, habitantes das comunidades localizadas nas periferias das periferias deste país.
Há, pois, neste caso, uma quebra e mesmo um retrocesso no paradigma do saber, primeiro porque estes processos de transmissão de conhecimentos são democráticos e respeitosos, ao contrário da passagem/imposição de saberes institucionais, que em geral é autoritária, ou seja, paradoxalmente, instituições como o IAP e outras do tipo, quando agem com a intenção de formar, acabam por usurpar os saberes, minando as formas populares de conhecimento, desrespeitando-as, porque o que norteia o princípio destas formações é um resultado certificado e não um aprendizado propriamente dito (até porque este aprendizado já se localiza na sua matriz, ou seja, nas comunidades).
Por trás do manto sagrado da formação, ocultam-se os valores e as formas eruditas de passagem do conhecimento.
Não há aqui diálogo, mas, pirataria, como disse a Edna Marajoara.
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Quem anda pelo Marajó sabe muito bem disso...
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Uma das coisas que percebi logo no primeiro dia das oficinas é que no Marajó as coisas têm um tempo próprio...
Muito próprio.
Este tempo ao qual me refiro só ocorre e se encerra num único espaço, o Marajó.
Este tempo resulta de um processo histórico de colonização e opressão, que começou com a chegada do primeiro homem branco à Região,e que persiste ainda nos dias atuais com a afirmação destes velhos valores, que se perpetuaram e se transformaram, adquirindo as requintadas formas contemporâneas de exploração.
O caboco do Marajó é ensimesmado e desconfiado exatamente por isso, porque sofreu e ainda sofre na carne e aprende com este sofrimento a se defender destes ataques e destas agressões à sua cultura.
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A poesia é para mim um crepúsculo e isto é óbvio porque algo em mim sucumbe quando a sinto.
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Há duas coisas sobre as quais ainda não aprofundamos nestas andanças marajoaras.
Uma é a bicicleta e a outra, a poesia.
Sim, porque para quem se dispõe em ir ao Marajó é necessário qualquer coisa além do sentimento de aventura.
Não bastam as águas e as baías para serem transpostas.
Não basta a vontade e o desejo de conhecer porque há algo além deste porque.
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Talvez fosse mais correto escrever um pequeno manual com as regras para se ir ao Marajó, talvez isso me trouxesse algum $, talvez as editoras se interessassem pois que o turismo é o que está a dar por estas bandas, quando o dá.
Mas não, ao contrário disso, eu prefiro bicicletas e poesias.
Sim porque os transportes no Marajó são um problema real que começa desde a saída de Belém, passando-se por duas baías, a do Guajará e a do Marajó, até que enfim cheguemos aqui.
Embora aqui possamos chegar de carro, pela balsa que sai de Icoaraci até o porto do Arapari, e embora por aqui tenham mototaxistas e taxistas, penso que para se transportar, em Soure, melhor é usar uma bicicleta, embora o mais recomendável, em períodos de chuva, seja mesmo um búfalo.
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Há mesmo quem já tenha me dito que para se ir de Soure para Cachoeira é preciso ir até Belém, ou seja, fazer uma viagem de três horas de barco, antes percorrendo trinta minutos de terra, isso quando não chove e quando as águas não estão revoltadas.
De onde necessariamente se tem de sair – com uma estrutura mínima – para chegar ao Marajó (quem quer até pode sair de outro lugar, em viagens intermináveis, em barcos pesqueiros, estes sim, ou trabalhadores pescadores ou aventureiros), há que sair de Belém.
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Os tempos mudaram, isso aqui cresceu demasiado, já são cerca de 23 mil habitantes, espalhados nas zonas urbana e rural, mas as coisas continuam as mesmas.
Soure cresceu, é verdade, do mesmo modo cresceram as suas contradições e também os trabalhos valorosos que vêm sendo realizados por abnegados amantes do Município, como a Mãe Zeneida e o artesão Ronaldo, com os quais haverei de encontrar e com os quais ainda falarei."
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PROGRAMA GERAL - Maio
Projeto Residência e Resistência Artística em Pontos de Cultura
APRESENTAÇÃO DA OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO
RECEPÇÃO DE INSCRIÇÕES
Dia 5 de maio, 16 hs, na SECRETARIA DE TURISMO – TRAPICHE MUNICIPAL:
APRESENTAÇÃO DA OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO
RECEPÇÃO DE INSCRIÇÕES
Quarta, dia 6 de maio, às 20 horas: SECRETARIA DE TURISMO – TRAPICHE MUNICIPAL:
AULA INAUGURAL da OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO:
1) Apresentação da OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO
2) Projeção de filmes:
“É PROIBIDO NÃO TOCAR OS SABERES NO MUSEU DO MARAJÓ”, de Darcel Andrade
“UM CÃO ANDALUZ”, Luís Buñuel e Salvador Dali
Quinta, dia 7 de maio: REALIZAÇÃO DAS ENTREVISTAS para a OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO
OBS:
1) As entrevistas serão realizadas nos seguintes locais:
GRUPOS DA MANHÃ E DE SÁBDO: CENTRO ESPÍRITA LUZ, AMOR E CARIDADE
GRUPOS DA TARDE E DE SÁBADO: SEC MUN DE TURISMO – Trapiche Municipal
2) Nestas ENTREVISTAS, os candidatos responderão as seguintes perguntas:
SE VOCÊ FOSSE UM DIRETOR DE CINEMA, QUE TIPO DE FILME VOCÊ GOSTARIA DE REALIZAR NO MARAJÓ¿
QUAIS SÃO OS TEMAS QUE ESTE FILME DEVERIA ABORDAR¿
OBSERVAÇÕES FINAIS:
1) As inscrições para a OFICINA DE AUDIOVISUAL: ROTEIRO, PRODUÇÃO E REALIZAÇÃO ainda estão abertas até o dia 7 DE MAIO DE 2009
2) As aulas da acontecerão entre os dias 11 e 30 maio
3) As aulas do GRUPO MANHÃ acontecem 3ª E 5ª - das 9 às 12 Horas – CENTRO ESPÍRITA LUZ, AMOR E CARIDADE
4) As aulas do GRUPO TARDE acontecem 4ª E 6ª - das 15 ÀS 18 HORAS – SEC MUN DE TURISMO – Trapiche Municipal
5) As aulas do GRUPO SÁBADO acontecem das 9 às 12 horas, na ESCOLA GASPARINO BATISTA DA SILVA
6) E o Projeto Resistência Marajoara ainda oferecerá:
Dias 11, 19 e 25 de maio: Sessões públicas de cinema - Trapiche Municipal, 20 hs
Dias 28 e 29 de Maio OFICINA DE ESCRITA LÚDICA - na BIBLIOTECA MUNICIPAL CARMELITA NUNES GOUVEIA: das 8 às 12.
SESSÃO DE CINEMA NA CASA: 2 de maio de 2009
A CASA DO PROJETO
... SOURE, QUARTA, 6 DE MAIO DE 2009
Quando alugamos esta casa para servir de base do Projeto RESISTÊNCIA MARAJOARA em Soure ficamos todos contentes, pois que ela é espaçosa e arejada – e além do mais já estávamos quase a entregar os pontos, depois de três semanas de intensa procura e muitos negócios desarticulados em cima da hora, provocando-nos um mal estar e ao mesmo tempo um gatos de recursos em hotéis – e quando estávamos a optar por outra casa, muito menor, ainda pior, encontramos esta que pertence a um mototaxista de Soure, o Twury, casa da qual gostamos, entretanto, este quase fechar e desfechar negócio provocou-nos algum estranhamento, pareceu-nos que as pessoas estavam com algum receio quanto à operacionalidade deste negócio – e há até aquele caso de um senhor branco que tentou nos alugar uma casa e nos disse que ele não faz negócios com marajoaras, que são mal pagadores, pelo que ele só faz negócio com o pessoal de fora, mas, embora nós sejamos de fora, nós nos sentimos daqui porque queremos aprender a olhar as coisas como os marajoaras olham, nós nos sentimos daqui de dentro desta ilha, e além do mais eu não pactuo com este tipo de pensamento, motivo pelo qual alugamos a casa do Twury, que é mototaxistas, filho de Soure, a nossa casa fica na 3ª Rua, nº 1 – Prolongamento, Bairro Novo, passando a Travessa 25, pertinho do Barracão da Saudade, onde tem festa com som muito alto até altas horas da madrugada.
Nossa casa tem duas casas vizinhas, sendo uma mais próxima, há dois metros de distância, quase colada e outra há uns 10 metros; há uma cerca de arame farpado a dividir a nossa casa das duas outras casas vizinhas; a casa do lado esquerdo tem uma venda de churrasco que comemos algumas vezes; além de vender churrasco esta família também cria galinhas, porcos e um búfalo e este búfalo algumas vezes também pasta á frente de nossa casa enquanto os porcos fuçam no quintal; o movimento matinal na 3ª rua é intenso e perfeito; são pessoas da comunidade a ir para o seu trabalho, jovens a ir para a escola, trabalhadores e donas de casa num ir e vir cotidiano; e muitas, muitas crianças; a maioria das pessoas passa à frente de casa á pé, claro, mas muitos passam de bicicletas, motos e até carroças por último carros; aqui é a periferia e esta é a nossa casa..."
Carpinteiro de Poesia e de Cinema
© FOTO: Carpinteiro de Poesia
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Uma pequena fala sobre a viagem a Soure- Marajó
Disse Stanislavski que “quanto mais ampla for sua memória emocional, mais rico será seu material para a criatividade interior”.
Creio que isto dispensa maiores explicações, a educação dos sentidos, das sensações, então, do todo perceptivo é a efetivação de todo trabalho em arte, pude perceber na ultima viagem a Soure que estou me reprocessando, re-conhecendo o Marajó que eu achei que conhecia porque fui acostumada a viver maravilhosas férias naquele lugar desde criança, hoje estou indo a trabalho e sou outra criança, ainda sendo a mesma.
Já que a incumbência é de fazer um relatório, então vou proceder com minha memória afetiva, mesmo que ela não obedeça ao tempo cronológico dos acontecimentos, prometo, portanto, nem usar as anotações da agenda.
É importante, de início registrar e criticar a tormentosa viagem de balsa, chegar de madrugada em Icoaraci foi a única coisa boa, tomamos café com tapioquinha num ambulante defronte a ruína da antiga residência (em ruínas) do poeta Tavernard, e depois eu e André tivemos de empurrar o carro para entrar na balsa, a pobre máquina já deu prego antes mesmo de sair de Belém, depois lá em cima, empilhados esperamos cerca de uma hora e a balsa não saía, disse-me um tripulante que esperavam por umas pessoas do GOVERNO que estavam atrasadas, o governo sempre perde a hora. Então foram quatro longas horas de sono impossível em assentos muito desconfortáveis e apertados, não podíamos descer e ir até o carro e não podíamos fazer quase nada naquele estábulo onde armazenam as pessoas de maneira simétrica, tremida (a balsa é velha e se treme toda) e estúpida.
Depois de passar por Salvaterra e providenciar logo um frete para a mudança com fogão, camas e mesa, chegou a hora de limpar e arrumar a casa, me adiantei logo com vassoura, água e sabão, estava ansiosa pelo descanso, mas não podia parar, Rômulo constatou que não havia sequer um armador de rede na casa inteira e tratou de improvisar com arames farpados, tive medo da engenhoca, mas afinal, tínhamos camas, e ele garantiu que suporta até 100 quilos. Isto levou o dia inteiro e no final da tarde caiu uma chuva pesada que levou a noite inteira, o tempo esfriou muito, e quando a faxina acabou, André e Rômulo conversavam sobre o trabalho, possibilidades criativas e técnicas de articulação com os participantes, me enfiei na conversa indagando sobre a tal didática, descobrimos que entre, café, cachaça, redes e chuva, havíamos começado o seminário, e nesta primeira etapa, mesmo sem a presença do colega Chiquinho, que ficou adoentado em Belém, falamos sobre relações perceptivas entre música e imagem, e seu papel no “filme coletivo”, mas como desejar tanto de um processo de ensino-aprendizado da arte num campo tão aberto? E os possíveis choques entre concepções de criação artística tão diferentes entre nós e os participantes de Soure, e mesmo entre nós e nós mesmos? Que posturas adotar para não parecermos professores e alunos? Mas somos professores? Devemos chamar os participantes de alunos? O filme coletivo é um produto em processo ou um almejado produto cultural? Somos arte-educadores, oficineiros ou artistas a socializar nosso trabalho? Ou seres extra-terrestres?
Confesso que os meninos iam falando da oficina deles (que é musical) e eu ia fazendo os questionamentos. Porque acredito que precisamos nos provocar a dialética para lançar um olhar crítico diante do atual conceito de oficina que vem sendo difundido no mercado educacional/cultural que chama de oficina de arte aquela oficina de coisa pronta e acabada com a etiqueta de “feito à mão”, onde não há nenhuma preocupação com as razões estéticas dos alunos, que neste tipo de proposta recebem mesmo o nome de aluno obedecendo o sentido literal da palavra, que quer dizer “sem luz”, mas aqui no Corredor Polonês já dissemos que todo mundo “é uma estrela que acende e apaga” nos tempos do Bonde Andando, então estamos fazendo uma oficina de construção de instrumentos percussivos a partir da reutilização de resíduos visuais, sonoros e sólidos, ou estamos fazendo uma oficina de construção de tambor com garrafa-pet?
Então não podemos ter “alunos”, nem podemos nos submeter a trabalhar em oficinas de arte porque não podemos iniciar um trabalho com um “produto final” em mente, nem podemos nos colocar como professores como a gente vêm fazendo, porque não estamos no âmbito da educação quadrática e pedagogizante da escola, estamos trabalhando na construção de um filme coletivo no Marajó e temos o compromisso de trocar experiência, de aceitar e também questionar valores e atitudes de cidadãos marajoaras, e, portanto, de provocar e ser provocados na agonia, febre e delícia da fruição artística.
Deste diálogo acalorado e muito cansativo ficou a proposta de repensarmos as bases epistemológicas deste fazer, considerando o direito previsto, inclusive, por lei de todo ser humano ter acesso aos códigos artísticos e culturais e expressar-se livremente por meio deles, e de que dentre muitas outras coisas, estamos entrando nesta batalha pela efetivação deste direito. Então, grifo aqui, que não devemos nos esquecer de pensar e levar adiante este diálogo para que não tenhamos mais crises de identidade com nosso trabalho, precisamos nos posicionar firmemente mesmo entre as situações cambiantes típicas do é conforme marajoara e também da natureza do processo de criação artística.
No mais, outra coisa é importante registrar : este é um projeto de RESIDÊNCIA ARTÍSTICA EM PONTO DE CULTURA, a residência artística já acontece, mas e o ponto de cultura que firmou acordo conosco aonde foi parar? Estamos trabalhando dobrado, o ponto em Soure é ilusão fria de papéis e falácias, não temos apoio nenhum, e inclusive, nunca vimos o ponto de cultura ou o público que ele trabalha, que dirá residenciar nisto, mas já tivemos contato e longas conversas com três gestoras em outras ocasiões. Mas nesta última passagem por Soure, uma delas passou por nós e não reconheceu (?), outra por telefone, não lembrava de nenhum projeto de filme (?), e a coordenadora não pôde nos receber porque estava sempre em reunião(mesmo no feriado), e olha que passamos sete dias em Soure, mas o pior mesmo é saber que esta última tem de assinar os papeis pra Funarte .
De toda forma, a missão desta viagem foi inteiramente cumprida, ocupamos a casa, divulgamos o projeto no CRAS, nas escolas públicas de ensino médio e EJA, na RESEX, que acumula trabalho com 17 associações e o mais importante: depois de praticamente pedir de joelhos, já temos um local e data para iniciar o trabalho no mês que vem, a isso agradeço ao atencioso secretário de turismo, esporte e cultura de Soure, que foi quem firmou esta importante parceria conosco. Foi bom mesmo no segundo dia de trabalho, entrar em estabelecimentos comerciais e escolas, e ser chamada na rua por algumas pessoas que queriam saber “como é que faz para participar do filme?” Isto me deu medo e satisfação, ou qualquer sensação similar a de ouvir o toque do tambor de mina ao longe, ou algo tipo surpresa e frio na boca do estômago.
No mais, os carrapatos e aranhas caranguejeiras invadiram nosso “aparelho” e a próxima imediata missão será envenená-los.
Até breve,
Isabela do Lago
quinta-feira, 2 de abril de 2009
pensamentos da OCCAsião

Sabemos bem que qualquer análise que façamos do conceito de educação remeterá, inevitavelmente, a nosso ver, ao conceito de cultura, então porque esquadrinhar tanto?
Há correntes pedagógicas que concebem a educação como instância de preparação para a ocupação de papéis pré-definidos pela sociedade, outras que objetivam a formação do indivíduo como “ser” ideal, outras que pretendem formar cidadãos e alcançar a transformação social. Inevitavelmente, em todas elas, está em questão a formação de um homem que, como ser social, está integrado a uma sociedade, a uma cultura, a um momento histórico.
Relembramos, aqui, palavras de Paulo Freire (1996), quando afirma que uma das tarefas
mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos ensaiem a experiência profunda de assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, etc.
Na concepção de Paulo Freire, como na de inúmeros educadores que militam na área de
Educação, como eu, percemos que nas três últimas décadas, a questão da identidade cultural é problema que não pode ser desprezado, nem na formação dos professores, nem na prática educativa, tanto que, num esforço de contemplar, os PCNs colocam a questão enquanto valores transversais ao ensino da disciplina, mas ninguém pensa a educação informal da arte, porque a da escola está cada vez pior, com separação em linguagens, então, coitados dos professores com formação em dança, teatro ou música, porque na escola, só querem saber do Da Vinci e do Tangran, dificilmente se pensa a origem do aluno, é porque, na escola é mesmo aluno o *sem luz, mas no Campo aberto, estão dando azas a projetos, que contrata oficineiros, ou arte-educador, e considera a vivência prática, paga menos e nem precisa se preocupar com esse povo que é formado em arte, mas, que compreensão didático-pedagógica tem o instrutor de capoeira, quem está dando formação pra esse pessoal? Será que tem o "arte-educador", por acaso um termo já problemático, será que é correto pensarmos a educação no campo aberto como uma prática de menor valor que a da escola? Sim porque a escola quer o prodessor de nível superior, e as oficinas de arte são dadas por diletantes, e o tal prática crítico-educativa, se a moda da oficina é só pra reproduzir procedimentos técnicos, então conseguimos voltar no tempo, e estamos revivendo a educação artística do regime militar.
Cabe então perguntar: É possível pensar educação em uma perspectiva distante da história de um povo, e assim, dissociada da cultura? Que conceito de cultura pode levar a uma separação do conceito de educação?
O conceito de cultura, abrangendo o conjunto de valores, de manifestações materiais e
imateriais produzidas em sociedade, obviamente inclui a educação, esta entendida como o processo pelo qual as sociedades geram conhecimento crítico e inculcam seus valores, os criticam ou criam novos valores.
Se pensamos em políticas públicas e em educação como uma instância da formação do indivíduo e da cidadania, e se considerarmos a visão mercadológica que permeia o fomento à cultura, a responsabilidade social, o papel da escola e o papel da sociedade civil organizada, certamente temos alguns problemas a enfrentar, neste sentido, vale questionarmos como captar verbas adequadas para a educação, na rede regular, fora do âmbito da concepção mercadológica que prolifera na sociedade?
Políticas públicas envolvem planejamento, definição de objetivos sociais, de concepções filosóficas, etc. Como proceder dessa forma, no âmbito de verbas destinadas á cultura, de forma ampla e difusa, no âmbito de uma visão de mercado que, se não é a do MINC, é de grande parte da sociedade?
Como pensar a cultura na educação, se não vislumbramos a carga poética que cada pessoa carrega nas costas, sem pensar o embate, sem pensar no outro, sem acreditar que há algo a mais no mundo além de tua maldita vivência, como se a tua vivência nunca tivesse dependido de outrém?
segunda-feira, 30 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Escrita numérica
quarta-feira, 11 de março de 2009
Em Soure, no Marajó
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Carpinteiro de Poesia e de Cinema
Ao propormos um filme coletivo
Entregamo-nos ao desconhecido, não temos medo do escuro, somos semeadores de futuros.
Em busca do tempo perdido.
Carpinteiro de Poesia e de Cinema
No dia 26 de fevereiro de 2009 encontramo-nos no Corredor Polonês Atelier Cultural
Pela ordem, abri a sessão com uma exposição global do projeto, tendo, se seguida, exposto a minha oficina. E depois vieram o Carlo Rômulo e o André Queiróz e a Isabela do Lago.
Penso que foi um momento importante para consolidarmos os nossos projetos ao expormos e dialogarmos sobre os conteúdos e as metodologias com as quais pretendemos trabalhar em cada uma das oficinas.
Este processo sedimentou as nossas falas que iríamos fazer – e fizemos – no dia 4 de março, quando do encontro com cerca de vinte lideranças comunitárias de Soure, às quais conquistamos ao expor em linhas gerais os nossos objetivos com este projeto.
Foi um encontro significativo, com a participação consciente e crítica da comunidade, para a qual pedimos confiança e apoio para levarmos o nosso projeto avante.
Dissemos o que iremos fazer, ou seja, sem cartas marcadas e regras determinadas, queremos fortalecer as organizações comunitárias, mediante o desenvolvimento de um projeto de caráter artístico e cultural, que tem como meta fazer um filme (COLETIVO), pela própria comunidade e a partir do olhar da própria comunidade, que será convidada a participar de oficinas, das quais surgirão as idéias e as práticas de realização da obra cinematográfica coletiva, que será apresentada à comunidade em cerca de dez sessões públicas.
Antes desta reunião pública do dia 4 de março, em Soure, durante os dias 2 e 3 de março, nós nos diluímos no cotidiano do Município, alugamos bicicletas e rodamos vários espaços, conversando com professores, poetas, representantes de instituições, e, ao mesmo tempo, procurando uma casa onde afinal deveremos RESIDIR ao longo do período de duração do projeto, entre abril e setembro de 2009.
Assim sendo, na segunda, dia 2, fomos à Semed e falamos com as professoras Rosilea e Jocelma. Fomos de seguida visitar o cemitério, depois na Biblioteca Municipal e depois andamos até a colônia de pescadores e a Resex. E no final da tarde fomos buscar o Carlo Rômulo.
Na terça, dia 3, fomos até ao Crass, conhecemos a professora Marilene, acertamos, inclusive, elaborar um projeto de formação para multiplicadores sobre confecção de máscaras de papel machê. De seguida, passamos na Associação dos Artesãos de Soure e depois estivemos com o Antenor Penante no Cortume.
Depois pedalamos até Araruna. E antes e durante e depois de tudo isso, falamos com várias pessoas sobre casas, e visitamos cerca de sete casas.
Em todos os momentos, passamos a nossa mensagem.
Na quarta, dia 4, finalmente, encontramos com a comunidade, no auditório da prefeitura.
Carpinteiro de Poesia e de Cinema































