quarta-feira, 20 de maio de 2009

CONVOCÇÃO GERAL



Diário de Blog - SOURE, terça, 20 de maio de 2009, 7h45min

Diário de BORDO
SOURE, terça, 20 de maio de 2009, 7h45min
Por que é que eu não vejo do jeito que as pessoas daqui vêem as coisas?
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Um dos meus mais contundentes (e repetidos) discursos é que os povos amazônidas não têm tudo condições de manifestar o seu inalienável direito de conduzir os processos, quaisquer que sejam eles, ao seu próprio modo.
Estas condições têm lhe sido retirada conforme um histórico e secular processo de colonização e neocolonização, cujos pressupostos são caracterizados por um silêncio e ignorância deliberados, com relação a todos os níveis da produção amazônida.
O fenômeno é facilmente identificado na miscelânea de políticas nacionais, todas anscidas no centro-sul-sudoeste, pelas idéias e mãos de tecnocratas que praticamente desrespeitam as diferenças políticas, sociais, econômicas, geográficas e culturais deste país conteinente, cuja sociedade não pode se adequar mas vem forçosamente se adequando aos padrões preconizados por organizações e empresas internacionais e mesmo às de capital privado cuja dimensão já atravessou há muito os limites brasileiros.
São estes os interesses que destroem os patrimônios culturais dos povos tradicionais e das comunidades amazônidas, disseminando nestas uma dependência ao envio de recursos a maioria dos quais manipulados por instituições cujos gestores tem interesse nefasto.
Assim sendo, o que quer que seja que produzam ou que façam os amazônidas fica subordinado a uma conceituação, interpretação e divulgação, institucional e mediática que se vai reproduzindo em escala local, já que também são executadas por alguns cidadãos amazônidas, sem nenhum horizonte no qual possam afirmar as suas diferenças e com o devido estímulo ou omissão das instituições e mídias existentes nas suas comunidades.
E este paradoxo, eu identifico claramente aqui em Soure, onde estou a morar em conseqüência do fato de ter conquistado o Prêmio Interações Estéticas em Pontos de Cultura, da Fundação Nacional de Artes/Ministério da Cultura.
É a complexidade deste fenômeno de natureza política e social – e de dimensões antropológicas – que me leva a fazer a indagação-título deste texto que ouso desenvolver com o único objetivo de aprofundar as minhas reflexões pessoas, a partir desta vivência a qual me dedico na qualidade de artista e com a devida licença poética para questionar e responder as questões filosofais que se vão instalando no universo de minha percepção.
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Ao defender o direito dos amazônidas gerirem a sua vida e a região do jeito que eles desejam, necessariamente, portanto, eu sei que me coloco diante de uma aspecto contraditório, porque é fato que a cultura local está absolutamente impregnada com os valores das culturas – por assim dizer – extrnas, que invadem as casas das pessoas via televisões e rádios, mediante notícias, programas, novelas e publicidades dirigidas ao consumo em larga escala, comum aos grandes centros brasileiros e internacionais.
Este “do jeito que os amazênidas desejam” está contaminado pelas proposições (e porque não dizer lavagens cerebrais) das grandes necessidades de consumo, quer dizer, da fabricação de desejos destas necessidades.
E como jamais poderei arvorar-me o dom de determinar o que de fato é amazônida e o que não o é – pois que está contaminado por interesses outros que não os amazônidas – preciso tanto sucumbir ao processo desta vivência – para assumi-la de forma natural e artística -, quanto necessito distanciar-me da mesma, para que eu possa então interpretá-la de uma forma mais científica.
Este é o equilíbrio necessário mas apenas para observar os fenômenos, jamais para afirmar verdades sobre eles.
Ao defender o direito dos amazônidas conduzirem os processos da forma que eles desejam, eu também terei de estabelecer balizas para dissociar os contrastes, resgatando os valores tradicionais que vem sendo destruídos e que já estão quase soterrados, pois que esquecidos e domesticados, o que fatalmente me colocará em confronto com os novos (e híbridos) signos das atuais manifestações culturais locais, dos modos de ser, dos comportamentos das pessoas, e da forma que a comunidade encaminha o seu próprio cotidiano, ou seja, do jeito que ela deseja.
Serei eu um dês-construtor de desejos? Nesse caso, com quais direitos?
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Os meus processos de trabalho estão localizados na esfera da imagem e do imaginário, amazônidas e marajoaras, a minha pesquisa é imagética (cinematográfica e fotográfica) e o seu resultado será um filme coletivo, nascido das oficinas transdisciplinares (audiovisual, teatro, música) previstas neste Projeto batizado corajosa e carinhosamente de RESISTÑCIA MARAJOARA, no qual eu convoco os participantes a refletirem sobre as manifestações culturais locais, muitas das quais eles próprios são atores, pelo que a ferramenta da imagem se torna um referencial importantíssimo de distanciamento, uma fragmentação de um dado momento, o qual, estagnado (e distanciado) no tempo - em que ela foi obtida/capturada/registrada -, poderá ser melhor observado.
Se eu tenho afirmado o óbvio, ou seja, que as produções científicas, acadêmicas e mesmo as produções artísticas (sobre a Amazônia na sua dimensão continental) são fabricadas de fora para dentro da prórpia Amazônia, fato que, após ampla difusão destas produções, acaba corroborando para que se produza na Região um olhar de fora para dentro, a partir de paradigmas que não são localizados neste espaço geográfico e cultural, nessariamente, eu necessito reunir forças para que este tsunami seja estancado na sua matriz, contribuindo tanto para o esclarecimento desta situação quase limite, denunciando-a, ao mesmo tempo em que colaborando para apoiar na formação (ou na reformatação/re-interpretação) de valores que sejam capazes de estimular a cidadania, a dignidade, além de resgatar e defender as tradições da cultura popular local.
E sempre com a perspectiva de que todos os choques são possíveis e inevitáveis pelo que eles não poderão ser evitados, devendo mesmo ser enfrentados, sejam os choques atuais, entre os valores da cultura local, sejam os que de alguma forma preservaram o que ela tem de mais tradicional, sejam os valores que ignoram os valores da cultura local, pois que a cultura se faz destes processos enriquecedores, dinâmicos, que lhe configuram as complexidades, já que ela não é estanque, monolítica, fazendo-se, refazendo-se no interior destes choques e destas transformações, pelo que eu também, com todas as minha idéias e intenções acabo por me tornar também mais um elemento no interior de todo este processo.
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Estes são os dados, estes são os jogos, estas são as regras, estas são as possibilidades e probabilidades de um jogo quase infinito, que eu jogo com toda a minha finitude.
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©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

Diário de Blog, 22 de maio de 2009 – 22h12min


Diário de BORDO:

SOURE, 22 de maio de 2009 – 22h12min


Não posso dizer que eu tenho tudo o que preciso, mas nada me falta.
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Se eu fosse estabelecer uma comparação entre o Marajó (mais exatamente Soure, onde estou a residir) e a cidade da Praia, em Cabo Verde (onde eu morei e realizei um projeto semelhante, no caso, cinematográfico – e de articulação de coletivo), eu ousaria dizer que as resistências comunitárias são exatamente da mesma ordem e se localizam no estranhamento ao fato de eu ser um estrangeiro e no desconhecimento dos meus objetivos artísticos e sociais, entretanto, de fato, eu habitei Cabo Verde por três anos e tenciono residir em Soure até meados de Junho, retornando aos finais de semana – até final do ano e com as perspectiva de vir a me transferir para cá, tendo inclusive articulado uma remanejamento profissional da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará, Fapespa, para reforçar a comunicação e a cultura aqui no Município, mas, enquanto as cartas são feitas, protocoladas e as decisões melhor analisadas, eu vou tocando a vida com a força que Deus me deu.
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A grande questão que eu sempre me coloco é que, apesar do caráter nacional e de estar vinculado a uma Instituição Nacional, a Funarte, no âmbito de uma política nacional do Ministério da Cultura e que visa o fortalecimento dos pontos de cultura, este Projeto não tem absolutamente nada de Institucional, o que de alguma forma passa ao largo da onda institucional municipal, sendo também paralelo a comunicação mediática em Soure e mesmo em Belém, cujos editores de cadernos de cultura – por determinação das linhas editorias dos jornais paraenses – simplesmente silenciam com o que vem a ser realizado nas comunidades do interior do Pará, então, por exemplo, em uma rádio local, eles chegaram mesmo a me cobrar dinheiro para eu dar um recado sobre as inscrições, enquanto que algumas pessoas já chegaram a dizer que este Projeto foi pouco divulgado pelas rádios, ao contrário, por exemplo, de uma oficina realizada recentemente aqui através da Secretaria de Comunicação do Governo, que teve apoio absoluto da Prefeitura, portanto, da institucionalidade municipal, e repercussão nas rádios, que são uma referência de comunicação local.
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Portanto, na contracorrente de uma maré institucional e mediática, sigo o meu percurso, em busca de qualidade, jamais de quantidade, pois que não desejo demasiados alunos nas oficinas, mas sim pessoas interessadas, apaixonadas pela escolha que fizeram, no caso fazer esta e/ou outras oficinas deste Projeto, afinal, sempre digo aos meus alunos que eles não são obrigados a fazer a oficina e se escolheram este Projeto é porque estão interessados, logo, quem faz o que quer por escolha própria, espontânea, necessariamente faz melhor o que faz, pois que faz com paixão, além do mais, também digo isso aos meus alunos, a dimensão deste Projeto não é aleatória, mas Histórica, cada filme que projeto, cada exercício que peço, cada ação que praticamos vislumbramos muito além do horizonte, para além dos campos do Marajó, além da Amazônia, além da América do Sul e mesmo do planeta terra, mas necessariamente enraizado nos conhecimentos populares e tradicionais locais, de forma a que as raízes permitam que todos cresçamos, de forma coletiva.
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Não sei se ao final deste Projeto teremos um coletivo de cinema, mas é certo que faremos um ou mais filmes, além de miniprojetos como roteiros e curtas documentais.
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Esta primeira oficina é a baliza das demais que seguirão, as quais necessariamente se articulam com o filme coletivo que estamos construindo, entretanto, como tive cerca de sete dezenas de inscritos, a maioria dos quais sequer comparecendo no primeiro dia dos trabalhos – e tendo recebido cerca de duas dezenas de inscrições nos primeiros dias da minha oficina, além de muitas manifestações de interesse verbal, sem que estas se tivessem constituído em uma participação real, comecei a perceber que teria de me desdobrar pedagogicamente de forma a não deixar desestimuladas as pessoas que permanecem no projeto desde o seu começo, ao mesmo tempo garantindo um acompanhamento das práticas às pessoas que vem somar ao Projeto durante o seu percurso, e ainda tentando resgatar algumas pessoas cujo potencial foi bastante revelador nas entrevistas, mas que desapareceram logo a seguir.
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É aqui onde mora e morre o arteeducador, porque, ao mesmo tempo em que eu tenho que me entregar de corpo e alma (e estou entregue) a este sonho que eu sempre sonhei e o qual estou realizando, também tenho que ter perspicácia e me distanciar do mesmo, a fim de obter uma ampla visão (autocrítica) deste Projeto, se as suas metodologias e práticas didático-pedagógicas estão sendo reveladoras o suficiente para implodir/explodir novos valores nas consciências de seus participantes.
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Passamos da oralidade à escrita, mediante composições iniciais cinematográficas, ou seja, do filme-falado (imaginado) a partir de práticas intrínsecas à cultura local marajoara, no caso, a tradição de passagem oral dos conhecimentos (quando solicitei que me respondessem sobre qual filme fariam na comunidade da qual fazem parte se fossem realizadores de cinema) - para o filme descrito, a partir da exercitação construtiva da idéia e do story line (para o caso de ficção; ou síntese, se este filme fosse documental) do que haviam “falado” na entrevista que caracterizou o processo de seleção e o primeiro exercício deste Projeto, prática a partir da qual eu pude melhor observar a sua capacidade de “transfusão signica”, ou seja, dos signos verbais/orais (no quais podem recorrer a vários mecanismos de sedução, entre os quais a modulação da voz, os gestos, as pausas, etc...) e os signos gráficos.
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Depois de avaliar cada um dos story/síntese e de, neste momento, detalhar observações estéticas e literárias, marco os encontros com introduções de elementos teóricos e históricos da arte cinematográfica, articulando-a às outras artes, como a pintura e a fotografia, apresentando ainda filmes siginificativos deste percurso, como os primeiros filmes de Lumiere, Um cão andaluz, além de documentários com temáticas marajoaras e amazônicas, portanto, revelando tanto a simplicidade quanto a complexidade do fazer fílmico.
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E apresento os elementos constitutivos do cinema, os seus aspectos técnicos, as funções dos técnicos que o fazem, o papel de cada um destes, a câmera, desde os seus primórdios, a luz e a sua importância à fotografia, isso tudo de uma forma natural, recorrendo à cultura das pessoas que fazem a oficina, citando como exemplo o cotidiano da cidade, as festas, as tradições, etc...
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Até aqui chegamos e o momento que agora se apresente é o de embate, já que no próximo exercício eu testarei a sua capacidade de articulação e liderança, meus alunos irão indicar uma pessoa da comunidade para que coloquemos a ela a mesma pergunta que eles responderam, assim, tentaremos linkar os seus desejos temáticos com o das comunidade, mas, no âmbito deste exercício, pedi-lhes que me apresentação a proposta de nome com alguma produção (e expliquei-lhes o que é produção, claro), ou seja, ao me indicarem um nome, eles terão que identificar a relação desta pessoas com a comunidade, a dimensão do trabalho que esta pessoa faz na comunidade, referindo ainda onde é que desejam entrevistar esta pessoa, defendendo no grupo este nome, já sabendo que não entrevistaremos todos os indicados, mas apenas alguns deles, pelo que eu passarei ao exercício seguinte, que é a definição de papeis de cada um quando da realização da entrevista, que será devidamente produzida, etc...
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A sorte esta lançada.
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Também lancei à sorte a construção de um miniprojeto que vamos realizar coletivamente, a filmagem da festa da Cobra, que acontecerá dia 12 de junho, motivo pelo qual, após esta entrevista com a comunidade, arrancaremos com o processo de pré-produção, realizando uma pesquisa sobre o trajeto da festa, de onde a cobra sai, quais os materiais dos quais a cobra é feita, quem é que leva a cobra e porque, coordenadores da festa, possíveis entrevistados, perguntas, etc... além da própria definição dos papeis de cada um.
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Por volta do dia 12 de junho talvez esteja por aqui uma equipe da Rede Brasil, que está a produzir um documentário sobre o Prêmio Residências Estéticas, motivo pelo qual tenho sido contatado por Ana Júlia, que suponho ser produtora ou diretora deste doc, o qual, quando veiculado, poderá conferir maior visibilidade ao nosso trabalho.
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A aula da manhã de hoje foi no Cruzeirnho, isso quer dizer que não usaremos mais o Centro Espírita com este grupo.
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A Casa de Cultura o Cruzeirinho é uma organização que existe há 22 anos, sob a direção da senhora Amelinha.
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O trabalho deles é intenso e se realiza em várias frentes, culturais, sociais, religiosas.
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A casa onde funciona o Cruzeirinho é um prédio secular, que pertenceu a uma antiga Sociedade Operária.
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Para além do Grupo de Tradições Marajoaras O Cruzeirinho, que já lançou dois DVDs, e que apresenta canto e dança (carimbo, lundu, chula, etc...) em Soure, no Marajó, em Belém, e em outras capitais, brasileiras e fora do país, o Cruzeirinho – que tem este nome exatamente por ficar sediado à frente da praça do cruzeiro (cujo terreno é de propriedade da Igreja) – desenvolve uma série de intervenções nas cerimônias de cariz religioso marajoara, como por exemplo durante o Círio de Nazaré, no Natal, na Folia de Reis e nos festejos de São José, que vinha a ser o padroeiro da antiga Sociedade Operária onde hoje funciona o Cruzeirinho, entretanto, há que ressaltar um aspecto relevante nestas intervenções dos cantores, músicos e dançarinos e dançarinas do cruzeirinho – para além das coreografias e vestimentas – e que se refere exatamente a uma (re)leitura do ritmo tradicional do carimbo, cujas coreografias se adéquam aos mais diversos momentos destas cerimônias religiosas, ou seja, quando do círio, há toda uma coreografia a volta da corda, e, quando do natal, há canções e danças em ritmo do carimbo relativas a esta temática natalina.
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(Estas preciosas informações, recebi de Andrea Scafi Moraes, que presta serviço voluntário a Casa de Cultura Cruzeirinho, e que veio a se juntar ao Projeto Resistência Marajoara, motivo pelo qual agora estamos com as aulas do grupo da manhã no Cruzeirinho)
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Sábado haverá uma reunião com os oficineiros Carlo Rômulo, Isabela do Lago e Andre Leite estarão em Soure para explicar como vão e com quem irão trabalhar no mês de Junho.
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Estão convocados todos os participantes das oficinas e também com pessoas interessadas em aderir ao Projeto, pelo que irei mais uma vez nas rádios, farei cartazes para afixar na UFPa (que funciona aqui no Município) e também na UEPA (em Salvaterra).
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Vamos ver como será a resposta da comunidade, a adesão a esta reunião, porque,s e vierem mais pessoas do que o esperado, fatalmente, avançarei com uma idéia que mês está a brotar: fazer uma oficina intensiva e de caráter cineclubista aos universitários, em Soure e em Salvaterra.
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Porque algumas parcerias estão a ser construídas com a academia, as quais não posso revelar agora, mas, se elas vierem mesmo a se confirmar, haverá aqui um casamento perfeito!
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A chuva no Marajó é um fenômeno tão voraz que apenas estando aqui é que eu começo a entender porque o Padre Giovanni Gallo escreveu “Marajó, a ditadura das águas”.
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Chove e chove, ou seja, ou você ignora a chuva e vai à luta ou você espera que a chuva passe para fazer o que tem de ser feito, mas, como a chuva só passa de grossa à fina e vice-versa, melhor mesmo é não esperar pela natureza e avançar – com todo respeito – contra ela.
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Nas horas vagas – e quase nem existem horas vagas, apenas quando chove, tenho me dedicado a aprender a tocar violão, a partir das canções de roda infantis, cujas cifras eu retiro de um livro que eu comprei em um sebo em São Paulo, quando estive por lá também para comprar a câmera e outros equipamentos indispensáveis para este Projeto.
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Amanhã tratarei de várias coisas para avançar o Projeto, porque na próxima semana eu muito provavelmente ficarei em Belém, também para tratar de assuntos do Projeto, como reunir com o Sabrae e com a Sedect.
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É isso, são horas, vou salvar os arquivos que postarei no blog também amanhã, além de outros que preciso imprimir, como o cartaz convite para a reunião de sábado, que ainda terei de fazer esta noite.
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©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

AULAS & AULAS






















DIÁRIO DE BLOG - (NOTAS ANTIGAS:30 DE ABRIL DE 2009)

DIÁRIO DE BORDO
...Segunda, 30 de abril de 2009


... muitas vezes eu tenho vontade de relatar, mas não um relato temporal, apesar de cronológico, porque a escrita da História não é como a da arte...
... e eu pretendo deixar estas marcas...
... um projeto, ele se faz, na dinâmica dos fatos, na vivência intensiva de seus intestinos ou dos instintos de quem acredita nele, porque, afinal de contas, há que ter um projeto como um sonho, depois, o resto é crença...
... sempre tive projetos, sempre acreditei em sonhos e quando estes sonhos tornam-se eles próprios nas suas realidades cognitivas, quando estes sonhos, mais que individuais, tornam-se coletivos, quando sinto que estes sonhos são também sonhados por outros seres humanos que não eu, eu sinto que há uma convergência inexorável do universo, uma conspiração como se diz, mas não necessariamente ao meu favor...
... porque não existem acasos...
... há pois a escritura, como disse Derrida, e toda ela se processa em linguagens, códigos com os quais estabelecemos relações de representação e correspondência, como se aranhas fôssemos, nesta teia que nunca finda...
... e a palavra teia súbito traduz os espaços possíveis de uma certa contemporaneidade, este conceito esquizofrênico e capitalista em que os seres humanos são apenas indivíduos quando possuem propriedades...
...aí os conhecimentos livres sucumbem a pequenos pensamentos e o bicho homem coisifica-se com o seu stress e a sua incansável necessidade de produzir culturas e pagar dívidas para que então elas possam justificar porque eles precisam comprar o que de fato não desejam...
... seus desejos inventados cobrem-lhe o rosto com mentiras, mundo falso e mascarado, onde estão confusos os valores, porque hipócritas e incapazes de sustentar os fracos...
... como eu não tenho nada, nada tenho que perder...
... despido este manto urbano, recolho do fundo de um baú as vestes de um palhaço que eu próprio o sou nesta capital na qual eu não nasci e estendo-a nas praças e ruas de um município que ainda haverei de descobrir, com o tempo...
... ali em Soure poderei enfim encontrar estes povos ribeirinhos, estes povos das águas, estes povos das florestas, cujas vidas eles vivem sem que eu tenha alguma coisa que ver com isso...
... mas por que eu vou então lá¿ o que é afinal de contas que eu irei lá fazer¿...
... porque quem diz lá diz em qualquer lugar mas quem diz lá identifica este lugar, isso já é por si só uma matriz, o resto é decalque...
... um lugar não pode ser qualquer outro lugar que não ele mesmo, logo não levo nada nesta bagagem, apenas estes sonhos que ainda os estou a sonhar...
(...)
... desde quando soube deste edital que não parei de pensar nele, algo me chamava, o futuro, talvez, ou esta coisa que vamos construindo com a experiência...
.. e isso foi um fenômeno coletivo entre todos mas vivido na esfera do individual...
... esta é cena do corredor, o individual em jogo com o coletivo de tal forma tão fecunda e confusa que acabamos por não mais perceber onde um e outro começam e/ou terminam, se se suprimem, se se aglutinam, se se conflitam, se se descuidam...
... todos os frutos amadurecem, mas, alguns, apodrecem, outros, nem brotam...
... o edital me despertou e desde então pensei tanto nele que eu senti que o ganharíamos, o sonho acabou...
... agora há que despejar no lixo estas velhas teorias e estes velhos diálogos e estas velhas conversas, o planeta ecológico também se recicla...
(... )
... pergunto-me se um dia esta História será contada, enquanto a narro, enquanto ela vai sendo narrada...
(...)

©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema






Diário de Blog, 15 de maio de 2009 – 19h49min

DIÁRIO DE BORDO
SOURE 15 de maio de 2009 – 19h49min

Fiz fotos de meus manuscritos marajoaras esta manhã, agora eu escuto reggae, depois de um merecido banho, a última coisa prática que me lembro de ter feito foi esperar o padre Edmilsom a quem eu queria comunicar que pretendo filmar a chegada de Santa Rita na casa\de Dona Yolanda Paula, aliás, o nome desta senhora é Yolanda Paula e não Ana Paula como eu havia pensado e já escrito aqui, soube disso pela Valquíria, que é secretaria da Prelazia e que está a digitalizar o livro tombo da Igreja, ela se comprometeu em dar meu recado ao padre, cheguei a casa, finalmente, a vizinha do lado me ofereceu alguns doces e salgados e um pouco de refrigerante, pelo aniversário de sua sobrinha, de seguida a mãe da menina também veio me chamar para tomar uma cerveja, aleguei meu cansaço e disse que estava apenas chegando a casa, ela entendeu, gentil que é, como de costume o são todos os marajoaras, a princípio desconfiados, arredios, mas, depois, dóceis, amigos, como o são os meus alunos da oficina, aliás, esta tarde foi tão aproveitável que já começo a pensar que temos aqui grandes chance de fazer brotar arte no seu estado de pureza, havia pedido aos meninos e meninas que fizessem o story line do que haviam me respondido na entrevista, todos que compareceram á aula fizeram o exercício, alguns mesmo com força expressiva no texto e na capacidade de síntese, eu aproveitei cada momento para analisar o que escreveram bem como para dar toques literários e cinematográficos, detalhando com argumentos algumas possibilidades de articulação de suas storys com o que haviam narrado, diferenciando e buscando unidades entre o que me eles me narraram e o que eles me escreveram, mostrei os aspectos ilusórios de ambas as formas, a oral e a gráfica, disse-lhe que podemos iludir as pessoas pelo nosso modo de falar, pelo nosso tom de voz, pelo nosso jeito de nos expressar com o corpo, as nossas pausas, e que, com a oralidade, tornamo-nos mais próximos uns dos outros, porque nos olhamos nos olhos, corpo a corpo, enquanto que com a palavra escrita, só há mesmo a palavra, a sua força no que ela nos quer transmitir, disse-lhes que o cinema é a arte da síntese (também já lhes disse que o cinema é a arte do tempo, a arte do silêncio, enfim, disse-lhes mesmo que o silêncio é a arte da sabedoria, que ele denota a passagem e a derrocada inexorável do tempo, disse-lhes isso de uma forma simples, de modo a que entendessem, embora, esta tarde eu lhes tenha dito que não iria dizer mais algumas cosias para não lhes confundir e eles uníssonos: diz, e eu disse-lhes sobre as articulações entre o documentário e a ficção apesar de suas aparentes diferenças, é interessante avançar desta forma para jovens que ainda nem se iniciaram nos pantanosos terrenos da metafísica artística, mas a avidez deles pelo conhecimento é impressionante, a cada momento tenho sentido uma dedicação, uma entrega e assim parece-me que estamos a construir um projeto, pelo que estou de fato feliz neste começo de noite de sexta-feira, enquanto escuto reggae...), o cinema, ´, pois, a arte da síntese, o que significa dizer também que é na capacidade de síntese que eles podem revelar o seu talento em traduzir e simplificar uma idéia e saltar desta ao story line, e sem alterar-lhes o texto, sugeria a eles o que deveriam retirar, para somar, o muito com o pouco, pouco a pouco, os meninos demonstravam a sua percepção, fiz um intervalo e dei-lhes a câmera fotográfica, eles começaram então a brincar e já no intervalo mostrava-lhes os enquadramentos, falava-lhes sobre planos e escalas de planos e também sobre as massas e os objetos no contexto captado/revelado pela imagem obtida, quando retornamos, mostrei-lhes fotos de um cinematógrafo, falei-lhes sobre os irmãos Lumiere, e mostrei também fotos dos primeiros filmes da história do cinema, de seguida, eu projetei o filme do Darcel Andrade (o mesmo que eu projetei na aula pública inaugural: É PROIBIDO NÃO TOCAS N’OS SABAERS DO MARAJÓ), fechando a aula com a sugestão de que escolhessem uma pessoa da comunidade a qual deveriam fazer a mesma pergunta que me responderam, mas pedi-lhes que fizessem produção – porque, logo no início da aula desta tarde eu lhes convoquei a que filmássemos a festa da COBRA e falei sobre produção, que cinema e arte de uma forma geral é produção, ou seja, pedi aos alunos que quando viessem indicar a pessoa da comunidade, que eles me dissessem o que faz esta pessoa, qual a dimensão de seu trabalho e o seu poder de inserção e de significação comunitária, disse-lhes que me indicassem onde é que desejavam entrevistar esta pessoa, se em espaço interno ou externo, de forma a que na próxima aula eles defendam a pessoa que estão a indicar porque não entrevistaremos todos, entretanto, eu também pretendo forçar uma disputa entre os alunos que tenham poder de articulação, liderança e oratória, deixe-os livres para que pactuassem, que se juntassem espontaneamente em grupos, se assim o desejassem...

©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

MANUSCRÍTICOS MARAJOARAS







Diário de Blog - QUINTA, 14 DE MAIO DE 2009 - 17h25min

DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, QUINTA, 14 DE MAIO DE 2009 - 17h25min


Nem tudo está perdido mesmo quando a gente pensa que tudo já se perdeu, assim é, assim tem sido, dinâmica - e quase latejante, esta experiência marajoara, esta residência proporcionada por este Projeto, ao qual estou agora mais que mergulhado, por sob as correntes marítimas destas águas sinuosas deste arquipélago, que ainda desconheço, mas cujos mistérios começo aos poucos desvendar.
Dia cansativo este, quando dei por mim eram já 4h30 e eu a falar com a Dona Geralda sobre a possibilidade de articular um Cineclube na EDDA, aliás, ela é a terceira pessoa desta escola com a qual falo sobre isso, tendo sido o professor Lúcio o primeiro e a coordenadora pedagógica do turno da manhã a segunda, e sempre com a intenção de falar com o diretor que ainda não conheço, mas, pelo que me disseram, uma pessoa interessada e dinâmica.
Como tenho insistido em descrever neste diário, eu sou uma faz tudo nesta Residência que se torna desta forma uma verdadeira resistência – senão marajoara, ao menos pessoal, portanto, se há qualquer coisa para ser feita, quem a faz sou eu, ou seja, para além do Projeto em sua dimensão global e para além da oficina de audiovisual que eu coordeno e cujas aulas eu tenho que preparar todos os dias, observado, claro, a rica complexidade de todo este processo de demonstração de interesse, comparecimento e dispersão de jovens e adultos, eu ainda tenho necessariamente que dar conta das coisas corriqueiras e que muitas vezes escapam á história, que também é composta destas pequenas coisas não narradas oficialmente, mas cujo valor é inestimável para o próprio ciclo de composição de qualquer História, aliás, eu penso mesmo que determinadas pequenas coisas não são narradas por que quem as faz são pessoas sem instrução acadêmica e sem articulação com as estruturas de poder, pelo que desaparecem os seus feitos neste fenômeno da oficialidade.
Pequenas coisas, por exemplo, limpar a casa, pagar as contas, tratar destes assuntos, mas quando pensamos no Marajó, estes assuntos tomam uma dimensão muito maior, porque aqui as coisas tem a sua própria particularidade, vide, por exemplo, colocar uma carta no Correio e passar cerca de 40 minutos da fila de espera porque a única agência de correios, com um único caixa aqui em Soure, também serve para operações bancárias, então, quem quiser agência como correios, que se dane, idem para a casa lotérica, que faz vários tipos de operações, pagamentos de pensões, benefícios, etc. já que aqui não existem tantas agências bancárias, e além do mais eu ainda tive que fazer uma espécie de peregrinação, ontem, na Celpa e na Cosanpa, para ajustar as contas atrasadas de luz e água desta casa em que moramos, são tantas pequenas coisas que elas acabam mesmo por se tornar imensas, entretanto, elas não prejudicam o processo pedagógico ao qual estou dedicado, ao contrário, esta imersão cotidiana faz com que eu me sinta literalmente em casa e passe aos poucos a gostar ainda mais deste lugar, faz com que eu chegue mesmo a pensar que eu quero morar aqui, motivo pelo qual tenho tratado de minha transferência profissional da Fapespa para reforçar a comunicação e cultura de Soure.
Hoje eu fiz uma super-peregrinação no Conselho Tutelar, no Conselho dos Direitos do Adolescente e da Criança, na Delegacia de Polícia, e amanhã irei ao Fórum, no Ministério Público e no Juizado da Infância e ainda na Polícia Militar apresentar o Projeto e mostrar quais são os meus objetivos, de forma a evitar transtornos e constrangimentos como os da terça-feira, dia 12, quando alguns populares se assustaram com o fato de eu estar a fazer fotografias públicas de adolescentes e crianças que me pediam que os fotografasse publicamente quando eu sai das sessões de foto que eu fiz na romaria de Santa Rita, e fiz esta super-peregrinação sob o aconselhamento do Vigário local a quem eu procurei em busca de uma orientação, afinal, eu quero mais é me dedicar ao PROJETO em si e não a estas pequenas coisas que acabam elas também por se tornar grandes coisas já que tomam meu tempo e minha mente.
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Um dia, portanto, sempre vem mesmo seguido ao outro, e no Marajó, o dia vem quase sempre com a chuva, e hoje não foi nada diferente, mas tive que sair de casa na mesma, e me pus a esperar meus alunos da manhã, á frente do Centro Espírita, mas nem Jeferson, nem Jéssica, com que inclusive eu havia falado na noite anterior, entretanto, apareceu-me uma nova aluna, a Andrea, e de seguida vieram Fernanda e Cristina, mais uma nova aluna, trouxe-as até a casa do Projeto e avisei que terça-feira é dia D, quem vem-vem, quem não vem-nunca mais virá, já que não poderei trabalhar desta forma, descontínua, mas, tanto Andrea quanto Fernanda e mesmo Cristina já chegam com uma carga de experiência e maturidade – e eu ainda alimento a esperança de não perder nem Jessica e nem Jeferson, do grupo da manhã, que se mostra mais sólido, em função destas experiências de terem participado de cursos de vídeo, o que torna a aula em um nível avançado.
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A aula desta manhã foi interessante, portanto, e eu praticamente repeti os percursos da aula da tarde de ontem, em síntese, projetei as entrevistas que eu realizei com cada um dos participantes das oficinas e nas quais eu perguntei: se você fosse realizador de cinema, qual filme você realizaria em Soure... de seguida, eu falei um pouco sobre o ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO, os seus componentes fundamentais, as suas etapas, com base no livro do Doc Comparato, que sempre uso nestas oficinas e nas aulas de cinema que ministro em quaisquer que sejam os níveis dos alunos, e pedi a eles que refletissem sobre o que disseram, de forma a me trazerem na próxima aula um Story Line de suas propostas, portanto, na próxima aula todos vão ler as suas Story uns aos outros e de seguida comentaremos estas sínteses de forma a dar-lhes um tratamento adequado, e de seguida eu deverei projetar um filme no qual eu dialogo com a galera do Grupo Puraquê sobre cinema em Santarém...se ainda tiver tempo, devo mostrar-lhes alguns pequenos projetos, já preparando os novos exercícios operacionais, quando lhes darei toques de manuseio de handcam, junto com pequenas aulas teóricas sobre as funções, as estilísticas e as dramaturgias cinematográficas...
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Quando eu mostrei as entrevistas aos meus alunos, eu fiz uma espécie de um mapa temática, no qual identifico as intenções temáticas de cada um deles, dividindo também por gênero, se documental ou ficcional, para que eles definam alguns pontos de conexão entre o que cada um deles deseja realizar...
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Porque a História que eu pretendo fazer com que estes meninos e estas meninas me revelem não é uma História como NARRATIVA, e sim como INTERPRETAÇÃO, portanto, não se trata de um FALAR como um resultado de um processo, mas como construção e processos de processos, ou seja, o FALAR como um processo em si, já que o resultado poderá vir a servir como parâmetro, paradigma, a partir do qual pode-se inferir e referenciar novos processos, que haverão de atingir resultados sem que estes resultados, entretanto, sejam interruptores dos processos, pois que é o processo o espaço de crescimento e de afirmação das criatividades...
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O FALAR se faz na experiência de sua construção, ou seja, para além das falas dos meninos e das meninas que participam deste Projeto, na manifestação dos seus desejos temáticos – e no resgate das tradições orais das culturas populares marajoaras - em contrastes com os desejos temáticos das comunidades...
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Tenho interesse, já o disse, de trabalhar com duas linhas, uma documental e outra ficcional, embora meu interesse seja mesmo fazer um documentário, pelo que deverei avançar com os processos de construção de um roteiro ficcional e na realização de um filme de caráter documental...
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Nesse sentido, trabalho com META-PROCESSOS, META-LINGUAGENS e META-FILMES, que são as três fontes e as três partes constitutivas da METAFÍSICA DO CINEMA POBRE.
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Ao filmar um a um dos participantes – na sua NARRATIVA pessoal, gestada partir das suas experiências e vivências individuais – sobre um suposto filme – 1 FILME COLETIVO, crio pistas para a nucleação de MINI-PROJETOS AUDIOVISUAIS, ou seja, portas abertas para que realizemos 1 ou + FILMES, de forma a que, até o final do Projeto, em Setembro, para além de um filme coletivo, tenhamos um número razoável de projetos audiovisuais, caracterizados por roteiros, entrevistas e documentários, além de registros fotográficos, blogs, etc...
...ESTAMOS APENAS COMEÇANDO...
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Hoje quando eu estava na loja que faz fotocópias, por volta das duas da tarde, perguntei as pessoas que estavam lá se elas sabiam onde fica a casa da qual sai a tradicional cobra da FESTA DA COBRA, que se realiza aqui no Município, e uma pessoa de nome AILTON interessou-se não apenas em me responder como também em indagar sobre o Projeto, o Ailton é presidente da Associação de Moradores do Pacoval, da qual também participa o artesão RONALDO, sobre o qual eu já falei, mas que ainda não conheço, embora Rômulo, Isabela e André tenham entrado em contato com ele, e eu e o Ailtom pactuamos um noivo encontro onde possamos estabelecer as bases da Oficina de sensibilização e confecção de instrumentos musicais, a terceira deste projeto, que será realizada logo a seguir a se teatro (objetos, personagens e adereços), ambas articuladas a esta primeira oficina, portanto, foi um saudável e proveitoso pré-encontro...
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E ontem quando eu fui à Igreja me aconselhar com o Padre e pedir a ele uma orientação sobre como proceder diante da reação da comunidade do Bairro Novo, que não entendeu o fato de eu estar a fazer fotos na rua, com a devida algazarra da molecada, que me pedia para que eu os fotografasse, eu também dialoguei com a secretária da Prelazia que me indicou uma Senhora que é viúve do projecionista que atuava no Cine-Teatro de Santo Agostinho e que me pode traduzir alguma memória daquelas antigas sessões e que são de fato a história do cinema de Soure...
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Há tanta coisa que fazer, tanta pequena coisa, tudo grande coisa...
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É fascinante encontrar toda esta riqueza, este delinear quase aleatório que se localiza em cada pedaço desta terra...
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7Daqui a pouco eu vou ao ensaio do Grupo Cruzeirinho, a convite de Andréia que é voluntária e que está a fazer uma produção independente, um documentário sobre este grupo, projeto este que eu me comprometi em apoiar e colaborar...
São18h25min e quando retornar do ensaio ainda tenho que digitalizar o que eu escrevi na noite de ontem...
Amanhã de manhã farei fotos do meu caderno de anotações...
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©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

Manuscríticos marajoaras







DIÁRIO DE BLOG - QUARTA, 13 DE MAIO DE 2009 – 21H30MIN

DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, QUARTA, 13 DE MAIO DE 2009 – 21H30MIN


Escrevo agora mais por necessidade do que por vontade, estou cansado e pronto para dormir, sentado à rede da sala, com as janelas abertas, está quente e os insetos, sempre presentes...
Gostava de ter melhor descrito a viagem que fiz nesta segunda, 11de maio, barco cheio, atrasado – mais tarde vim saber que por ser fim de mês muitos sourenses ou residentes em Soure vai receber $ em Belém, benefícios, pensões, etc.- muito vento, maresia (e eu sai de casa às pressas, sem almoças, pedalando (já que trouxe a minha bicicleta, enquanto o taxi trazia o resto da bagagem, o computador portátil do qual não me separo, a mochila com roupas e uma caixa de mantimentos), sem dúvida, a viagem + original de todas que eu fiz a Soure – e cansativa – porque, depois de passar pela fila para a compra de bilhetes e pousar finalmente no barco as minhas coisas e mais tarde – no Camará – retirar outra vez tudo isso que eu transportava, dividi o frete de um velho carro do seu Luís (“Barra Pesada”, como ele próprio fez questão de se anunciar), e vir á boléia deste carro, feito peão, em meio às outras cargas que ali transportadas, sob uma persistente chuva fina e entrando em pequenas localidades de Salvaterra onde as pessoas desciam retirando as suas cargas e aliviando a boléia, acabei por ser o último a descer, chegando a Soure por volta das 8 da noite, depois da travessia na rabeta, já que não havia mais balsa naquele horário, e logo soube que a maioria das coisas que eu havia deixado aos cuidados de dois amigos, a Bia e o Luca, estavam molhadas, roupas, cassetes e mesmo as bolsas com os equipamentos, que por sorte também não foram apanhadas pelos constantes temporais que desabam sobre o Marajó neste período do ano,a final, dormi, exausto, choveu bastante durante esta madrugada, amanheceu chovendo na terça e eu me atrasei um pouco para a aula já que precisei retiraras coisas das malas molhadas e colocá-las para apanhar sol, fui buscar a chave do Centro Espírita (onde acontece a oficina do grupo da manhã, terças e quintas), mas o André demorou um pouco para encontrar a chave, e quando finalmente – de taxi e com os equipamentos todos, câmera, projetor, telão, caixas de som, disco externo, computador - eu chego ao Centro, não havia nenhum dos dois alunos que haviam participado das entrevistas que consistiam no primeiro exercício do Projeto, entretanto, esperei e mais uma nova aluna apareceu, conversei com ela, expliquei-lhe o básico da oficina, voltei para casa, deixo os equipamentos e controlo se o tempo está de fato a arejar os meus objetos e roupas molhadas, aproveito também para limpar a casa, faço uma faxina completa, passo veneno para carrapatos, o proprietário da casa aparece, suspendo o trabalho, pago-lhe o aluguel, digo que depois ele assina o recibo, trato de pendências de água e luz que ele insiste em dizer que as faturas são minhas quando eu sei que há atraso, pelo que terei de ir à Celpa e na Cosanpa, resolver estas pendências e esclarecer o que é meu e o que é do proprietário, retorno ao trabalho da limpeza da casa mais uma vez, e assim o dia passa, a tarde chega, quando finalmente recolho as roupas do varal, tomo banho, já é noite, saio á pedalar, no caminho, observo uma pintura na parede de uma casa, paro para perguntar sobre o autor – é “ODI”, diz-me a senhora – e descubro que ela é mãe de um aluno da oficina, ela fala sobre o ODI, que me parece uma linha interessante de investigação, tal qual é o projetor e o projecionista, as projeções realizadas no auditório Santo Agostinho e que podem fundar a trilha histórica do cinema em Soure, mas lamento não ter naquele momento a máquina fotográfica em mãos, para obter uma fotografia, comprometo-me em retornar para fazer fotos e saber mais sobre ODI, suas obras, e onde as mesmas estão localizadas, já que ele é chamado pela comunidade para pintar nas paredes das casas, tal qual ele pintou o “Sossego” na casa da mãe de meu aluno Edivan, despeço-me e saio a pedalar novamente, quando vejo uma casa com uma grande aglomeração de pessoas, aquele movimento me desperta uma curiosidade absoluta, fico a saber então que é ladainha de Santa Rita, vou a casa buscar a máquina fotográfica e começo a fazer fotos – penso: mais uma linha de pesquisa que se abre, as festas religisosas-, o cortejo sai desta casa em direção a uma outra residência, vou fazendo as fotos, com flash, que necessariamente chama a atenção das pessoas, uma senhora de nome Ana Júlia me procura e me convida a fazer fotos no sábado, quando Santa Rita chegará a sua casa, ela também quer que eu fotografe a ladainha na sua casa no domingo, pergunta-me quanto eu cobro por isso, digo-lhe que faço isso por prazer, de graça, que quero apenas que ela me compre um DVD virgem, fechamos negócio, vou fazendo fotos da romaria até que a Santa entra em uma outra casa, quando a romaria acaba, mas, então vem a meninada, no caminho a pedir que eu lhes fotografe, e assim vou fotografando, disparando flashs, por onde passo de bicicleta, há jovens que me podem que faça fotografias, despreocupado, sigo meu percurso, nesta rotina noturna, todo contente com a minha produção,a te que retorno à casa para deixar a câmera fotográfica, saindo de seguida para jantar, entretanto, no caminho sou abordado por uma senhorita, que vem de moto, e eu de bicicleta, de forma educada, ela pergunta se era eu que estava a fazer fotos lá na comunidade, respondo que sim, ela se apresenta como Cabo Margareth, e me diz que recebeu uma ligação das pessoas da comunidade, que estavam apreensivas com as fotos que eu estava a fazer da meninada, apresentei-me a ela, expliquei-lhe meus objetivos, esclareci a questão, sigo até o restaurante, mas, enquanto espero pelo pedido, sou mais uma vez abordado por um senhor, vereador, de nome Abdon, que estava bastante nervoso com a chamada telefônica de sua esposa, pelo que ele queria saber porque eu fiz fotos de seu filho, que, penso eu, deveria ser um dos muitos que me rodeavam a pedir que os fotografasse, então, fiquei mesmo preocupado com a repercussão de meu trabalho, conversamos eu e este senhor mas penso que ele não conseguia me escutar, portanto não conseguiu perceber que estas fotos fazem parte de um percurso de projeto, um mapear por assim dizer das manifestações culturais, populares e religiosas da comunidade sourense, e que a meninada foi apenas uma circunstância por insistência deles mesmos quando eu ia passando ao longo das ruas pelas quais passam as romarias de Santa Rita na comunidade do Bairro Novo, onde também estou a morar, sem nenhuma má-fé, então, o senhor deixou o restaurante, eu perdi o apetite, voltei para casa, até que depois de um longo tempo eu consegui dormir, já que na manhã seguinte eu precisava fazer uma série de coisas, entre as quais preparar e ministrar aula, então, saio de casa e no caminho encontro logo com a Dona Ana, a senhora que havia pedido que eu fotografasse a chegada da santa na sua casa, no sábado, e a ladainha, no domingo, expliquei-lhe os transtornos do dia anterior e informei que eu iria falar com o Padre, pedir-lhe uma orientação sobre como proceder com estes caso de forma a dirimir os mal entendidos com relação aos meus interesses e objetivos, mas, antes de falar com o Padre, eu fui entregar as chaves do Centro Espírita, que eu havia esquecido de devolver no dia anterior, fui à Cosanpa e à Celpa e fiquei então a saber do valor das contas atrasadas que eram da responsabilidade do proprietário, fui aos Correios sem conseguir enviar o Relatório do Projeto (mês abril) para a Daniela Sampaio, da Funarte, porque só havia um caixa na agência para atender mais de 40 pessoas, a maioria delas interessadas em realizar operações bancárias, então, decidi-me por ir ter com o Padre Adenilson, que é jovem, e estava a jogar futsal com os seminaristas, recebeu-me muito bem, escutou-me, apresentei-lhe o projeto, pedi-lhe autorização para fotografar as romarias de Santa Rita, ele então me orientou a não mais fazer fotografias por enquanto, até que ele lesse o projeto de forma a saber os meus objetivos, do mesmo modo ele sugeriu que eu apresentasse o Projeto no conselho Tutelar, entidade a quem procurei e pela qual, através do seu coordenador, eu fui orientado a fazer um Ofício endereçado tanto ao Conselho, quanto ao COMDAC, ao Juizado da Infância e Adolescência e ao Ministério Público, apresentando o Projeto, indicando qual o meu público, o local de realização das aulas, etc., o que fiz ontem e hoje, ampliando esta apresentação também às Polícias Militar e Civil.
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©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

domingo, 10 de maio de 2009

CARTA DO MARAJÓ...














Fotos do encontro histórico ocorrido em SOURE, Marajó, dias 6 e 7 de maio de 2009 - nas quais vemos pela ordem o gestor da SEEL, Albertinho Leão, José Maria Varela, Edna Marajoara, o assessor da Casa Civil da presidência da República, e o prefeito de Soure.
CARTA DO MARAJÓ

O presente documento manifesta contribuições e demandas das Populações Tradicionais do Arquipélago do Marajó, ao Colegiado de Desenvolvimento Territorial - CODETER para execução no programa Território da Cidadania dentro da Temática dos Povos Tradicionais aprovada oportunamente pela assembléia plenária do dito Colegiado de gestão.

DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO COM DESENVOLVIMENTO SOCIAL
Os signatários conclamam o CODETER e a plenária a priorizar nas ações do Programa do Território da Cidadania dentro da Temática dos Povos Tradicionais, respeitada a transversalidade socioambiental indispensável, o fator econômico que deve ser assegurado ao processo de desenvolvimento sustentável das Populações Tradicionais.
Para isto, por exemplo, o fomento de produtos de ECOTURISMO com a cara marajoara, deverá constituir elemento de integração da produção econômica em Economia Solidária. O mercado regional e local deve ser configurado em parceria público-privada incluindo a participação estratégica das comunidades como mais valia de festivais gastronômicos e culturais do Marajó como um todo no calendário de eventos do Estado do Pará.
Valorizada a especificidade do Marajó como pólo ecoturistico do PLANO AMAZÕNIA SUSTENTÁVEL (PAS), a milenar Cultura Marajoara deverá ser socializada em favor da gente marajoara, como determina a Constituição do Estado do Pará em relação à Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Marajó (APA MARAJÓ) e futura Reserva da Biosfera do Arquipélago do Marajó (RBIOMARAJO).
Evidentemente, tal pólo de ecoturismo deverá requerer em alto grau inovação tecnológica adaptada ao Trópico Úmido intimamente relacionado ao desenvolvimento do Zoneamento Ecològico-Econômico (ZEE) do estuário da maior bacia flúvio-marinha do planeta.
As entidades representativas das diversas comunidades tradicionais marajoaras; contando inclusive com apoio institucional do Museu do Marajó; colocam-se à disposição do CODETER e da plenária no sentido de assegurar conservação ambiental e fundamentação econômina comungada com o desenvolvimento social capaz de enfrentar o fenômeno da desigualdade socioeconômica que afeta as comunidades tradicionais, agravada com a crise econômica e financeira mundial.

DEMANDAS:

REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA
Regularização fundiária harmonizada ao ZEE com ampla participação das Comunidades Tradicionais
Ordenamento territorial por meio do ZEE: municipalizado

FUNDO AMAZÔNIA E OUTROS FUNDOS: apoio federal e estadual nos projetos de execução descentralizada e maior flexibilização ao acesso pelos Povos Tradicionais, para tanto os PED's demandados pelas comunidades tradicionais deverão ser aprovados tendo em vista:
Financiamento de um modelo de desenvolvimento inclusivo e não predatório.
Transformação e valorização da cadeia de produtos do extrativismo.
Manejo comunitário participativo com diretrizes técnicas respeitando as diversidades locais.
Manejo sustentável com a fauna tradicional para alimentação Ex - Muçuã
Licença diferenciada aos produtos de atividades de subsistência.
Reserva da Biosfera do Marajó
Implementação das diretrizes do PAS.
Agenda 21 local.
Extensão Rural - formação de ATER comunitário.
Tecnologias Sociais aos recursos naturais.
Energia renovável com biomassa.
Implementação ICMS extrativista.
Implementação do Plano Estadual de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais conforme lei n.6040 de 2007.
Criação de Conselhos Municipais de Meio Ambiente.
Ordenamento Costeiro.
Compensação Ambiental - recursos naturais processados nas comunidades até o produto final.
Matéria prima com certificado de origem georeferenciada.
Lei de acesso e repartição de benefícios.
Criações de Sitio Ramsar:
Perenização do Lago Arari: resgatar o estudo do IDESP/OEA como base de atualização e aprofundar o conhecimento com a participação de novas instâncias de cooperação multilateral.
Revitalização do interfluxo natural dito Anajás Mirim:
EIA/RIMA ampliado para todo centro hidrográfico da "ilha" do Marajó
Corredor Ecológico afim com a Reserva da Biosfera do Arquipélago do Marajó.
Água potável
Combate a erosão
Saneamento básico
NÃO à Hidrovia do Marajó

ECOTURISMO
Há que ser feita uma escolha clara quando a vocação econômica da região de integração Marajó: se o arquipélago do estuário do maior rio da Terra deve ser tratado como uma região qualquer e conforme o receituário do "desenvolvimento”... Ou, ao contrário, sua especificidade é a mais valida da Amazônia para servir de vitrine de um “case” especial de sucesso.
Projeto ARAQUIÇÁUA (sugestão de projeto ecoturistico com ênfase na etno-história marajoara relativa ao conflito hereditário entre conquistadores tupinambás e a resistência dos "nheengaíbas" [marajoaras indígenas])

CULTURA
Tombamento e restauração dos prédios históricos dos municípios marajoaras, como por exemplo a antiga prefeitura de Ponta de Pedras para servir de centro de artes e ofícios, integrado ao Museu do Marajó.
Fortalecimento e reconhecimento com proteção aos conhecimentos tradicionais das manifestações das culturas populares locais, como o carimbó, os pássaros, além dos esportes tradicionais marajoaras.
Centros Comunitários de Manifestações Culturais Marajoaras nos municípios.
Pontos de Cultura
Editais específicos para financiamento de pesquisas, programas e ações de desenvolvimento sócio-econômico e artístico-cultural das mais diversas formas de manifestação das culturas marajoaras, nos quais sejam reconhecidas as diferenças e as particularidades regionais do Marajó, bem como onde sejam respeitados os saberes das Comunidades Tradicionais locais.
Tombamento e reconhecimento da Pajelança Marajoara.
Casa de Referência Cultural e Comercialização de produtos Marajoaras provenientes das atividades de sustentabilidade das comunidades tradicionais na Rua Gaspar Viana (Tombada e Revitalizada) em Belém do Pará

MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Todas as ações de implementação do Plano Nacional de Mudanças Climáticas em parceria com
as comunidades locais.

EDUCAÇÃO
Responsáveis pelas escolas públicas com qualificação
Ampliar a educação rural com a pedagogia de inclusão voltada ao extrativismo
Resgate dos conhecimentos populares e tradicionais pelas escolas públicas de ensino do primeiro grau, com a presença dos mestres

SAÚDE
Enfermeiros qualificados no atendimento dos postos de saúde
Maior estoque de medicamentos nos postos médicos para atendimento das comunidades
Atendimento de médicos clínicos geral nos hospitais de base
Agilização da mudança da categoria de baixa complexidade para média complexidade dos hospitais de base
Controle e erradicação da malária e tifo

ASSISTÊNCIA SOCIAL
Implantação de Centros de Referência de Assistência Social com profissionais especializados para atuarem na assistência a população tradicionais, dada a sua particularidade( CRAS INDIGENA);
Fortalecimento das ações de atendimento especializado a famílias que vivenciam situação de violação de direito;
Ampliação de política de transferência de renda para fomentar o processo de inclusão produtiva destas comunidades, pela via da economia solidaria.

TRANSPORTE
Melhoria na qualidade e fluência do transporte fluvial
Revitalização e ampliação dos portos municipais
Melhoria do transporte terrestre dos portos às comunidades
Melhoria dos transportes terrestres municipais

COMUNICAÇÃO
Inclusão Digital
Formação técnica no âmbito das novas tecnologias de informação e comunicação com, por exemplo, web rádios, rádios e tvs comunitárias
Democratização radical da comunicação, com a garantia do direito às populações tradicionais de terem respeitado o seu direito de produzir e difundir conhecimentos e informações de interesse popular e social
Qualificação com oficinas audiovisuais nas comunidades para registro dos saberes e fazeres tradicionais com os mestres de cultura marajoara
Implantação de infocentros nas Comunidades Tradicionais

Cidade de Soure - Marajó ,Pará - 07 de maio de 2009

A articuladora Política do MARAJÓ

Eleita como articuladora política na plenária marajoara, MARÍLIA TAVARES DOS SANTOS, segundo as suas própria palavras, acomapnha desde o começo as discussões sobre o Programa TERRITÓRIOS DA CIDADANIA e também outras discussões sobre outros planos, fez pesquisa , trabalhou na produção de um documentário sobre cultura e turismo na região...
Ela diz que um dos maiores desafios é levar o conhecimento dos planos e das ações que estão acontencendo, mas que estão isoladas, a obrigação é levar estas informações para a comunidade...
Marília é articuladora do PPP e é uma pessoas que mais briga pelo Marajó, é de Curralinho mas se sente uma marajoara de todos os municípios do Marajó...

Diário de Blog: 8 de maio de 2009 (1)

DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, SEXTA, 8 DE MAIO DE 2009
©Francisco Weyl
"Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Grande Glauber. Quem vem ao Marajó fazer filme sob a ótica marajoara sabe bem o que isso significa. É na adversidade onde nasce a inventividade. O gênio criador brota no caos e age de forma magnífica com os seus próprios limites materiais. Sem ilusões. E a carência se torna uma dádiva. De Dioniso. O que quer que falte jamais fará falta à arte. Arte é revolução. Ela opera um processo de transformação interior, em cada ser humano, naquele que cria e naquele que sem ser criador sente a arte de forma inconsciente. Assim, ela se expande. Tal qual o universo, com a sua infinita grandeza cosmológica e as suas poeiras estrelares.
A simples presença da câmera em minha vida e a possibilidade de que a qualquer momento eu posso ligá-la e neste instante instalar todo o processo criador me dá uma sensação de conforto absoluta. Assim como a energia elétrica carrega as baterias da máquina de filmar, minhas energias instintuais e inconscientes, universais, fortalecem-me o espírito criador. O resto são os acessórios, culturais e técnicos, jamais artísticos.
Compreendo isso perfeitamente quando me sento neste salão do auditório Santo Agostinho, em Soure, onde se realiza um encontro que é Histórico. Para o Marajó. E fazer História não é para quem sonha, mas para quem age.
Deus sabe o quanto este dia está a ser violento e neste processo nascem uma sucessão de processos, já instalados no espaço em que opero, Soure.
Saio à rua logo de manhã para mais um dia, a pensar nesta que está a ser mais que uma missão. Sei que não posso naufragar nos meus pensamentos, preciso dar-lhes sentidos concretos, urge realizar as idéias maturadas durante o dia e também durante a noite, quando durmo, numa rede, na sala, com a grande janela aberta. E todos me dizem: cuidado. Entretanto, avançarei sempre em direção ao abismo, mas não com demasiada pressa.
A arte me leva para o abismo. No Marajó, este abismo é a minha necessidade de criar, de escalar o cume destes vulcões prontos a entrar em erupção, para, lá em cima, deixar-me estar, para além de minha solidão, em comunhão com aquelas aos quais eu me lanço com uma fúria incomensurável.
A câmera está com a bateria descarregada agora e enquanto espero pelo seu re-carregamento, aproveito para ouvir os informes e as discussões gerais sobre a aplicação dos recursos destinados ao Marajó pelo Programa Territórios da Cidadania, bem como para digitar estas reflexões.
Andei a filmar hoje, filmei esta plenária, o processo de votação de escolha do agente político articulador das comunidades no âmbito dos Territórios da Cidadania, entrevistei a Marília, que foi a candidata vitoriosa, e depois fui à rua e filmei o carro de som a fazer publicidade pelas ruas de Soure sobre a aula inaugural do Projeto RESISTÊNCIA MARAJOARA – que hoje tem a sua aula inaugural, no trapiche, às oito da noite, com os filmes É PROIBIDO NÃO TOCAR N´OS SABERES DO MARAJÓ, do Darcel Andrade, e UM CÃO ANDALUZ, do Luís Buñuel e Salvador Dali, e, depois, retornei para esta plenária e mais uma vez filmei, filmei o discurso da Edna Marajoara, a voz do Marajó, no dizer do representante da Caixa Econômica, aliás, filho da Zeneida, que não está presente, assim como muitas entidades dos movimentos sociais e instituições marajoaras. E olha que este é um dia histórico, e entre uma e outra coisa, fiz fotografias várias, tentei registrar algumas falas, para produzir um texto jornalístico que pretendo enviar para que seja publicado em sites institucionais, em Belém.
E aproveito para conhecer e dialogar com dirigentes de instituições marajoaras, distribuo os folders do Projeto RESISTÊNCIA MARAJOARA.
O homem que faz tudo.
No meu entendimento, este projeto, RESISTÊNCIA MARAJOARA é artístico e arte é exatamente isto, esta combustão, produção e choque, tensões, fragmentos, explosões."
©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

Diário de Blog: 8 de maio de 2009











DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, SEXTA, 8 DE MAIO DE 2009 (2)
©Francisco Weyl

"Não fossem estas grandes janelas a me revelar este imenso mundo marajoara, ainda que de forma reduzida, já que é só uma grande janela de frente para a terceira rua, eu não saberia degustar o gosto deste café matinal, calmamente, a ver o movimento de Soure, entretanto, já o disse, à margem de um sistema industrial, levo este Projeto-residência da forma que Deus me ensinou, procuro imergir substancialmente na comunidade, vivendo-a nas suas pequenas cosias, eis, pois a minha filosofia, ou o que eu chamo de o princípio do grão de areia e que se refere exatamente ao reconhecimento do espaço e importância que toda a minha vida tem para o mundo.
Grão de areia, no deserto, algumas vezes também bruma, que dissipa as imagens dos objetos através dos quais se ocultam as coisas naquilo que elas são, em essência. Há que fazer o que se pode fazer, com as armas disponíveis, tenho dito isto aos meus alunos, cada um doa aquilo que tem porque não podemos doar o que não temos, cada um colabora dentro e para além de seus próprios limites e assim aprendemos todos. Articular coletivos requer equilíbrio para suportar as provações das tensões, porque as pessoas são diferente uma das outras, cada cabeça uma sentença, cada vida uma multiplicidade quase infinita de memórias visuais e de desejos que se podem ou não afirmar no interior do coletivo do qual participamos, entretanto, é neste confronto de idéias e modos de ser que podemos crescer, juntos, mas cada um ao seu próprio modo.
A janela me revela uma ínfima parte do município mas através dela eu posso ao menos deduzir hipoteticamente que no Marajó as coisas são mais ou menos parecidas, posso imaginar que na rua ao lado, na 2ª ou na 3ª ou em qualquer outra, rua ou travessa, as ações se processam de forma mais ou menos semelhantes, com as suas pequenas nuances de diferença, e é exatamente esta diferença que pretendo identificar no âmbito deste processo de trabalho que inauguramos.
Não estou a fazer uma avaliação da semana, mas é como se estivesse a fazê-lo. Desde a chegada na semana passada a certeza de uma absoluta insegurança, de um estágio de suspensão no qual não podíamos divisar os acontecimentos que agora, ocorridos e processados, proponho-me a observar com uma ligeira distância antropológica.
Não sabíamos quantos inscritos haviam na oficina e nem sabíamos nada de estrutura nenhuma para os encontros, era, pois o abismo necessário, o dado objetivo para o nascimento da criatividade. Insegurança, sim, mas com profunda sabedoria sobre ela, tirando, portanto, proveito dela.
Não definimos horários por um princípio metodológico, queríamos perceber as demandas dos participantes nos encontros de apresentação do Projeto e ali mesmo definir coletivamente e já em um processo de exercício os horários e as turmas das aulas. Assim foi feito na segunda, dia 4 de maio, e na terça, dia 5 de maio. No dia 6 realizamos uma projeção pública, a aula inaugural, da qual participaram algumas pessoas da comunidade, a maioria das convocadas por um carro-som que contratamos para propagandear pelas ruas esta aula inaugural, que consistiu na projeção do filme do Darcel Andrade (É PROIBIDO NÃO TOCAR N´OS SABERES NO MUSEU NO MARAJÓ), seguindo da projeção de UM CÃO ANDALUZ (Buñuel/Dali).
Em todos estes momentos, aceitei receber novas inscrições, apesar de que as inscrições estivessem encerradas. Eu tinha em mãos dezenas de inscritos mas não os conhecia e desconfiava que muitos deles nem apareceriam nestes encontros, do mesmo modo que sei que alguns vão logo abandonar o barco que mal adentra a este rio das incertezas e das complexidades.
Ainda não me sinto em condições de analisar com profundidade as respostas que os meninos e as meninas deram ás entrevistas, o que eu pude perceber é que no geral, por serem jovens e por estarem diante de uma câmera, eles de alguma forma se intimidaram, mas, antes eu tentei relaxá-los, deixá-los tranqüilos, exortando-os para que acreditassem na resistência marajoara e que fossem convincentes pois as suas respostas poderiam convencer ao grupo e até mesmo vir a ser concretizadas enquanto filme, e fiz este chamamento de atenção também em nome das tradições orais marajoaras, uma das formas mais comuns de passagem dos conhecimentos e saberes nesta região.
Há por assim dizer uma tendência para o resgate da coragem do marajoara, dos pescadores e dos trabalhadores rurais, dos aspectos ecológicos das praias e das belezas naturais e ainda a valorização da cultura e dos próprios mitos regionais. Seria natural a manifestação deste desejo, assim como foi natural que alguns alunos revelassem o desejo de fazer um romance. Outros ainda disseram ter vontade de realizar um filme de suspense e de comédia. Entretanto, ao manifestar este desejo com base nos subgêneros, eles não conseguiam discorrer mais nada além disso, como seriam as personagens e que tipo de conflitos existiriam no filme que eles, se fossem realizadores, realizaria. E também eu não pretendia sacar deles mais nada, queria que ficassem a vontade e que falassem o que julgassem conveniente, o que achavam que tinham condições para falar, ou seja, eu não lhes queria colocar mais nenhuma demanda, de forma a não criar pressões sobre eles, que estavam quase todos nervosos.
Isso me dá uma luz sobre os procedimentos metodológicos, porque, na verdade, a captura destas imagens já era em si um exercício, que eu aproveitava para fornecer-lhes pistas das minhas experiências, por exemplo quando eu instalava os equipamentos, as duas câmeras, conectando os cabos ás mesmas, etc., enquanto buscava um cenário considerado tecnicamente favorável á captura destas entrevistas – que poderiam tanto nortear o filme e quanto elas próprias já sem um filme, um filme dentro de um filme, um metafilme no qual a comunidade revela seus desejos temáticos.
Este exercício eu aproveitava para dar dicas, toques sobre enquadramentos, contraluz, áudio, etc., Enquanto fazia às vezes de assistente e de diretor e de coordenador, enquanto falava com o Paulo Alex, do Departamento de Cultura da Prefeitura sobre o alto som do ensaio de dance, que eu não queria cortar, já que não me interesse indispor o meu projeto ás ações que normalmente rolam neste espaço do trapiche, ou seja, enquanto articulava uma série de eventos paralelos necessários á instalação da sala, a arrumação das cadeiras, etc., eu conduzia as coisas de forma a orientar os alunos e senti nos seus olhos alguma relação de confiança e de atenção, penso mesmo que n aqueles momentos eu os estava a fisgar, de alguma forma.
Às entrevistas da tarde compareceram cerca de vinte pessoas e apenas duas na entrevistas da manhã. Se este número configurar as oficinas teriam muito mais gente pela tarde. E ainda terei um grupo na manhã de sábado. 3ª e 5ª, de manhã, no Centro Espírita. 4ª e 6ª, de tarde, na Secretaria de Turismo. E, sábado, de manhã, na Escola Gasparino. As oficinas estão apenas começando e aproveito o start delas para logo convocar os alunos a este exercício, conceder uma entrevista, a qual será vista por todos já na próxima semana, quando então comentaremos as respostas tentando conduzir a construção do coletivo fílmico. Este exercício eu repetirei mas já com os alunos com a câmera na mão, a perguntar para as pessoas da comunidade, para que seus interesses sejam contrastados com os da comunidade, para que, dessa forma, nesse choque, todos cresçamos, e para que eles criem confiança na sua capacidade de operar um equipamento e dessa forma fazer cinema.
Quero trabalhar com dois grupos, um ficcional, outro documental.
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Aproveitei também estes dias para fazer política, já que Soure sediou um encontro do Programa Territórios da Cidadania com o Plano Marajó, com a presença de vários gestores de prefeituras e de secretarias e ainda de organizações não-governamentais marajoaras, além de líderes do Governo do estado. Foi um momento significativo de difundir o Projeto, fazer a fala do mesmo, propagando-o, tanto à plenária, com microfone em mãos, quanto diretamente a algumas pessoas.
E na medida em que aquele encontro foi que todos estavam a chamar, histórico, aproveitei Tb para fazer registros, além de entrevistas, apenas para não perder a História. E ali no auditório Santo Agostinho eu tive o grande prazer de encontrar um velho projetor, sobre cuja indústria de fabricante ainda estou a pesquisar, do mesmo modo que pesquisa sobre o projecionista e mesmos sobre as particularidades das sessões, quem as assistiu, quem as animava, portanto, estou em busca documental deste que pode ser o marco da história do cinema em Soure".


©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

AS PRIMEIRAS ENTREVISTAS: 7 de maio de 2009







SE VOCÊ FOSSE REALIZADOR DE CINEMA, QUAL O FILME QUE VOCÊ FARIA EM SOURE, NARRE-NOS UM POUCO DESTE FILME, FALE SOBRE SEUS PERSONAGENS E CONTE-NOS ONDE AS CENAS DEVERIAM ACONTECER...
Esta foi a pergunta que nos colocamos aos meninos e as meninas ineterssados no Projeto, as respostas nós todos juntos veremos a partir da próxima semana, pelo que a entrevista em si se constitui em um exercício ao qual todos foram convocados; de seguida, discutiremos nossas impressões sobre estes desejos temáticos de forma a aticular as ideias para um roteiro coletivo, que começa a nascer em Soure; na próxima semana, os meninos vão com a câmera pelas ruas fazer esta pergunta à comunidade...
Com este exercício eu pretendo explorar a força da narrativa oral marajoara, tão presente nas comunidades tradicionais e elemento indispensável ao reconhecimento e afirmação dos processos culturais históricos paraoara e amazônidas.

Carpinteiro

Diário de Blog: 7 de maio de 2009

DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, QUINTA, 7 DE MAIO DE 2009
©Francisco Weyl
"Como de costume – ainda na tentativa de construir uma rotina e dessa forma equilibrar as dinâmicas e complexas atividades que constituem este Projeto, mais exatamente este ir e vir, de casa, na periferia para o centro, algumas vezes á pé, outras de bicicleta e muitas vezes de motocicleta, já que transporte equipamentos e não tenho assistentes para que estes encaminhem esta tarefa braçal – sento-me para escrever, fazer a anamnesis do dia anterior, recuperar de forma mais ordenada alguns episódios e acontecimentos que não podem se dissipar com o tempo, olho à janela logo de manhã bem cedinho após acordar, olho as pessoas no seu ir e vir, para a compra e venda do pão, para a escola, párea a feira, a terceira rua tem a sua animação matinal, já começo a reconhecer alguns rostos, de mulheres, de homens, mas quase a totalidade deles não me conhece, ainda sou estrangeiro, quiçá, tal qual Dioniso...
É pois o projeto que se adéqua à realidade e não esta que se adéqua ao Projeto, já sabíamos disso desde quando começamos a desenhá-lo, tínhamos a clara certeza de que as nossas reflexões e experiências metodológicas, as nossas pedagogias seriam postas à prova, seriam mais uma vez forjadas no cotidiano dos atores que praticam este ato que é o conhecimento, esta via de mão dupla, na qual todos são competentes para aprender e ensinar, uns aos out5ros, com o mais completo aproveitamento das experiências e o absoluto respeito ás diferenças individuais.
É este o motivo que me faz optar por articular coletivos, por reunir pessoas de diferentes concepções de vida, diferentes sexos e orientações sexuais, diferentes idades, diferentes desejos, em um ambicioso projeto que se pretende coletivo, porque eu sou feito exatamente destas tensões.
Tal qual a arte necessita de conflitos, assim os coletivos necessitam das diferenças individuais de cada uma das pessoas que o compõem, de forma a processar uma relação na qual cada um colabora com o que pode, dentro dos seus limites para além de suas próprias capacidades. E todos crescem, cada qual de acordo com a sua própria qualidade.
Este filme que iremos realizar em Soure não tem uma fórmula e nem um roteiro ou uma idéia, apenas um desejo, o de ser realizado. Este filme, nesse sentido, nascerá em um processo para o qual o coletivo que está a ser articulado já está convocado.
O coletivo, então, nasce com esta missão que é fazer um filme no qual todos do coletivo são realizadores.
Depois da aula inaugural de ontem, quando projetei o filme do Darcel Andrade () e do DALI & BUÑUEL, para um público que me pareceu interessado, contabilizo que diretamente eu falei com cerca de 200 pessoas, e, indiretamente, através da publicidade do carro-propaganda que eu contratei para transmitir o convite e a mensagem pelas ruas da cidade, e mais os outros contatos que venho mantendo com diversas pessoas da comunidade e mesmo deste encontro histórico () que ocorreu ontem aqui em Soure, este Projeto, se ele ainda não está no imaginário da comunidade, ao menos ele começa por se consolidar, fato que comprovo quando algumas pessoas com as quais dialogo já revelam que são conhecedoras da realização deste PROJETO, ainda que ela nem saibam muito bem o que este Projeto é.
Ontem eu fiz dezenas de fotografias e também filmei , no auditório Santo Agostinho, onde se realizou este encontro (), são imagens fundamentais para algumas etnografias visuais, um marco no processo articulatório da comunidade marajoara.....
Sou quem transporte, instalo e desinstalo os equipamentos que eu uso e ainda tenho que protegê-los contra qualquer tentativa de furto, então, você imagina a minha atenção, redobrada, aguçada, a perceber qualquer coisa além do que me está á volta sem que entretanto eu me torne paranóico por este motivo.
Então, entre uma e outra foto, entre uma e outra filmagem, eu escrevia, tentava recompor alguns discursos, tomava anotações sobre o que estava a acontecer, ao mesmo tempo em que me dissipava do espaço e produzia algumas reflexões para além de epistemológicas.
Mas, uma coisa me chamou a atenção, um imenso projetor de cinema no cimo do auditório, dentro de uma cabine de projeção, um projetor abandonado (a origem dele eu ainda irei pesquisar a respeito...), com alguns pedaços de película de 35 mm.
Então eu quis saber quem era o protecionista e andei a indagar ali mesmo nos arredores da Igreja sobre isso. E entre uma e outra pessoa das quais eu não conseguia arrancar a resposta eu cheguei até uma senhora de nome Valquíria que trabalha na Prelazia do Marajó e ela me informou que talvez no livro tombo eu pudesse achar esta informação. E logo me interessei pelo livro tombo da Prelazia, onde muitas histórias estão descritas em um portunhol longínquo que a Dona Valquíria está a traduzir para o digital.
Então eu me interessei tanto por este livro quanto por este projetor e pelo protecionista e pelas pessoas que assistiram a estes filmes porque ali penso eu reside a memória do cinema Marajoara e esta memória eu quero resgatar de forma a que sejamos todos responsáveis pelo presente.
(E eu ainda quereria escrever mas agora eu preciso sair pois que vou entrevistar os candidatos á oficina, a idéia é entrevistá-los e na semana seguinte projetar estas imagens para que eles se vejam e discutam sobre as respostas de cada, respostas estas que vão orientar o nosso trabalho, a nossa criação, já que eles vão responder sobre que tipo de filme fariam em Soure se eles fossem diretores de cinema...)
O processo começa a ser desenhado, em esboços, como tem de ser!"

©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

AULA INAUGURAL: 6 de maio de 2009
















Com o filme do DARCEL ANDRADE (É proibido não tocar n'os saberes do Maraó) inauguramos o projeto publicamente no Trapiche Municipal de Soure. De seguida, falamos sobre o Projeto RESISTÊNCIA MARAJOARA e projetamos também UM CÃO ANDALUZ, de Buñuel e Salvador Dali...

Diário de Blog: 4 DE MAIO DE 2009

DIÁRIO DE BORDO
... SOURE, SEGUNDA, 4 DE MAIO DE 2009
© Francisco Weyl

"O dia de hoje é o primeiro passo da nossa História – o primeiro magnífico quadro artístico cinematográfico – a primeira “tomada” (cultural) oficial, adentro deste ciclo que é a incerteza.
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(... thesce, thesce, thesce, thesce, thesce, thesce, thesce – é assim que o homem da casa ao lado chama o seu porco…)
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Logo de manhã eu liguei a câmera e andei com ela pela casa a perguntar ao Krom, ao André e á Isabela quais eram as expectativas deles com relação ao dia de hoje, o que para eles significava este dia, o que eles esperavam encontrar pelo caminho, e eles responderam, cada um, com a sua filosofia, a qual agora – um dia depois, quando consegui finalmente me sentar á frente do portátil, com a janela escancarada para a rua, sozinho, em casa – eu, jamais, conseguiria recordar, entretanto, eu repetiria esta pergunta à noite, depois do dia decorrido, com um caderno de anotações, mas, no geral, eles me responderam de forma técnica, observaram acertos e erros e disseram esperavam pelos acontecimentos, na verdade, todos esperávamos pelos acontecimentos, afinal de contas, estamos em Soure, Marajó, e aqui, as cosias têm um tempo muito próprio, mas depois eu desenvolverei mais sobre este fenômeno, pois que agora é hora de reler alguns apontamentos, atualizando-os, com estas sobredoses de complexidades, destas pelas quais somos atravessados e nas quais mergulhamos a nossa criatividade, ou seja, no seu próprio nascedouro, a incerteza.
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Nós, os artistas temos esta liberdade antropológica para viver a vida, porque a desfazemos e a desafiamos, tal qual o ser humano se re-faz e se desafia a sai próprio e tal qual cada ser humano desafia um ao outro.
Por ser o que é, diferente.
E nesta diferença, onde cada um viva a sua vida da forma que lhe apetece viver, eu disse: da forma que lhe apetece e não das formas impostas sem que ele próprio o perceba e se perceba, ou seja: onde cada ser humano interprete a vida a partir de sua própria consciência.
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Em Soure - como no Marajó e se calhar em todos os municípios paraenses e mesmo nos municípios mais pobres do país, sim, porque Marajó tem o IDH mais baixo do mundo -, todas as ações passam necessariamente pela prefeitura.
Se você quer falar com algum gestor ou líder da sociedade, é óbvio, a prefeitura é o melhor local para este contato.
Desconfio que isto ocorre em todo o mundo, este fenômeno de migração de lideranças da sociedade civil para a “institucionalidade”.
(Entretanto, há um dado que me despertou a atenção e que se refere ao ecletismo religioso do “caboco” – expressão que tomo emprestada ao caboco Varela – marajoara: em Soure, o prefeito é evangélico e o secretário de finanças, espírita.)
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E esta institucionalidade se repete em outros setores, mas, explico: não me apetece condenar o Instituto de Artes do Pará, IAP, e outras instituições do tipo, entretanto, chateia-me o fato de instituições que se pressupõem soberbas ministrarem cursos para as populações do interior do Pará, alguns dos quais, inclusive, mestres de cultura popular, cooptando-os para um saber institucional, conferindo aos mesmos certificados para que continuem a fazer o que sempre fizeram, que é transmitir conhecimentos e saberes populares para os seus descendentes, habitantes das comunidades localizadas nas periferias das periferias deste país.
Há, pois, neste caso, uma quebra e mesmo um retrocesso no paradigma do saber, primeiro porque estes processos de transmissão de conhecimentos são democráticos e respeitosos, ao contrário da passagem/imposição de saberes institucionais, que em geral é autoritária, ou seja, paradoxalmente, instituições como o IAP e outras do tipo, quando agem com a intenção de formar, acabam por usurpar os saberes, minando as formas populares de conhecimento, desrespeitando-as, porque o que norteia o princípio destas formações é um resultado certificado e não um aprendizado propriamente dito (até porque este aprendizado já se localiza na sua matriz, ou seja, nas comunidades).
Por trás do manto sagrado da formação, ocultam-se os valores e as formas eruditas de passagem do conhecimento.
Não há aqui diálogo, mas, pirataria, como disse a Edna Marajoara.
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Quem anda pelo Marajó sabe muito bem disso...
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Uma das coisas que percebi logo no primeiro dia das oficinas é que no Marajó as coisas têm um tempo próprio...
Muito próprio.
Este tempo ao qual me refiro só ocorre e se encerra num único espaço, o Marajó.
Este tempo resulta de um processo histórico de colonização e opressão, que começou com a chegada do primeiro homem branco à Região,e que persiste ainda nos dias atuais com a afirmação destes velhos valores, que se perpetuaram e se transformaram, adquirindo as requintadas formas contemporâneas de exploração.
O caboco do Marajó é ensimesmado e desconfiado exatamente por isso, porque sofreu e ainda sofre na carne e aprende com este sofrimento a se defender destes ataques e destas agressões à sua cultura.
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A poesia é para mim um crepúsculo e isto é óbvio porque algo em mim sucumbe quando a sinto.
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Há duas coisas sobre as quais ainda não aprofundamos nestas andanças marajoaras.
Uma é a bicicleta e a outra, a poesia.
Sim, porque para quem se dispõe em ir ao Marajó é necessário qualquer coisa além do sentimento de aventura.
Não bastam as águas e as baías para serem transpostas.
Não basta a vontade e o desejo de conhecer porque há algo além deste porque.
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Talvez fosse mais correto escrever um pequeno manual com as regras para se ir ao Marajó, talvez isso me trouxesse algum $, talvez as editoras se interessassem pois que o turismo é o que está a dar por estas bandas, quando o dá.
Mas não, ao contrário disso, eu prefiro bicicletas e poesias.
Sim porque os transportes no Marajó são um problema real que começa desde a saída de Belém, passando-se por duas baías, a do Guajará e a do Marajó, até que enfim cheguemos aqui.
Embora aqui possamos chegar de carro, pela balsa que sai de Icoaraci até o porto do Arapari, e embora por aqui tenham mototaxistas e taxistas, penso que para se transportar, em Soure, melhor é usar uma bicicleta, embora o mais recomendável, em períodos de chuva, seja mesmo um búfalo.
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Há mesmo quem já tenha me dito que para se ir de Soure para Cachoeira é preciso ir até Belém, ou seja, fazer uma viagem de três horas de barco, antes percorrendo trinta minutos de terra, isso quando não chove e quando as águas não estão revoltadas.
De onde necessariamente se tem de sair – com uma estrutura mínima – para chegar ao Marajó (quem quer até pode sair de outro lugar, em viagens intermináveis, em barcos pesqueiros, estes sim, ou trabalhadores pescadores ou aventureiros), há que sair de Belém.
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Os tempos mudaram, isso aqui cresceu demasiado, já são cerca de 23 mil habitantes, espalhados nas zonas urbana e rural, mas as coisas continuam as mesmas.
Soure cresceu, é verdade, do mesmo modo cresceram as suas contradições e também os trabalhos valorosos que vêm sendo realizados por abnegados amantes do Município, como a Mãe Zeneida e o artesão Ronaldo, com os quais haverei de encontrar e com os quais ainda falarei."

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© Carpinteiro de Poesia e de Cinema