quarta-feira, 11 de março de 2009

TIPOS DE CHIFRES DE BÚFALOS DO MARAJÓ











© FOTO: Francisco Weyl

Ao propormos um filme coletivo

... temos cada um de nós que criar este projeto, partilhando as nossas sentenças e diferenças, afirmando as nossas desavenças e afinando as nossas competências.
Somos artistas metafísico-positivos, dispomo-nos a aprofundar e radicalizar este processo, que se torna ele próprio artístico, filosofal, na medida em que nos permite refletir sobre a extensão de nossa proposta, ao mesmo tempo em que revira a terra para que esta receba as sementes que vamos plantando nesta caminhada.
Entregamo-nos ao desconhecido, não temos medo do escuro, somos semeadores de futuros.
Em busca do tempo perdido.

© Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

IMAGENS - SOURE (MARAJÓ, MARÇO 2009)
















© FOTO: Francisco Weyl

No dia 26 de fevereiro de 2009 encontramo-nos no Corredor Polonês Atelier Cultural

para participarmos do seminário onde cada um de nós apresentaria os seus projetos de oficina

Pela ordem, abri a sessão com uma exposição global do projeto, tendo, se seguida, exposto a minha oficina. E depois vieram o Carlo Rômulo e o André Queiróz e a Isabela do Lago.
Penso que foi um momento importante para consolidarmos os nossos projetos ao expormos e dialogarmos sobre os conteúdos e as metodologias com as quais pretendemos trabalhar em cada uma das oficinas.
Este processo sedimentou as nossas falas que iríamos fazer – e fizemos – no dia 4 de março, quando do encontro com cerca de vinte lideranças comunitárias de Soure, às quais conquistamos ao expor em linhas gerais os nossos objetivos com este projeto.
Foi um encontro significativo, com a participação consciente e crítica da comunidade, para a qual pedimos confiança e apoio para levarmos o nosso projeto avante.
Dissemos o que iremos fazer, ou seja, sem cartas marcadas e regras determinadas, queremos fortalecer as organizações comunitárias, mediante o desenvolvimento de um projeto de caráter artístico e cultural, que tem como meta fazer um filme (COLETIVO), pela própria comunidade e a partir do olhar da própria comunidade, que será convidada a participar de oficinas, das quais surgirão as idéias e as práticas de realização da obra cinematográfica coletiva, que será apresentada à comunidade em cerca de dez sessões públicas.
Antes desta reunião pública do dia 4 de março, em Soure, durante os dias 2 e 3 de março, nós nos diluímos no cotidiano do Município, alugamos bicicletas e rodamos vários espaços, conversando com professores, poetas, representantes de instituições, e, ao mesmo tempo, procurando uma casa onde afinal deveremos RESIDIR ao longo do período de duração do projeto, entre abril e setembro de 2009.
Assim sendo, na segunda, dia 2, fomos à Semed e falamos com as professoras Rosilea e Jocelma. Fomos de seguida visitar o cemitério, depois na Biblioteca Municipal e depois andamos até a colônia de pescadores e a Resex. E no final da tarde fomos buscar o Carlo Rômulo.
Na terça, dia 3, fomos até ao Crass, conhecemos a professora Marilene, acertamos, inclusive, elaborar um projeto de formação para multiplicadores sobre confecção de máscaras de papel machê. De seguida, passamos na Associação dos Artesãos de Soure e depois estivemos com o Antenor Penante no Cortume.
Depois pedalamos até Araruna. E antes e durante e depois de tudo isso, falamos com várias pessoas sobre casas, e visitamos cerca de sete casas.
Em todos os momentos, passamos a nossa mensagem.
Na quarta, dia 4, finalmente, encontramos com a comunidade, no auditório da prefeitura.

© Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

IMAGENS - CORTUME - SOURE (MARAJÓ)

























































































































RELATÓRIO

Reunião de 9 de março de 2009
Início às 20:30 horas.
Presentes: Francisco Weyl - Rômulo Queiroz - Isabela do Lago – André Queiróz

PAUTA:
1) AVALIAÇÃO DA VISITA A SOURE
2) ENCAMINHANTOS

André:
É a primeira vez que vai ao Marajó. Achou positivo. Começou a visualizar melhor o que vai fazer na oficina de música. Sobre a reunião do dia 4 de março, percebeu o interesse da comunidade mais carente da região. Aponta que viu que já existe um projeto com instrução de instrumento na periferia de Soure.

Karlo Rômulo:
Percebe cada vez que vai a Soure a maior aproximação das pessoas ma comunidade. Busca a relação de confiança necessária para criar sinergias na construção do coletivo. Diz: temos todas as possibilidades de criar...

Francisco Weyl:
Achou produtiva a viagem, por sair do espaço do Corredor para ir ao espaço do projeto. No nível d apercepção, conseguiu-se dar os passos com nossas possibiloidades. Bicicletas são indispensáveis. Reviu o percurso de visitas que fizemos:
Secretaria / Resex / Cemitério /Cortume / Cras / Associação de Deficientes / Arraruna
A reunião do dia 4 de março foi positiva pela participação das pessoas. Mostrou o blog, as pessoas interagiram, então, cumprimos os objetivos da viagem. Tb foi importante o contato com a Cátia que estava finalizando o seu projeto.

Isabela do Lago:
Viagem proveitosa. Reunião do dia 4 de março como objetivo central. Surpresa quanto à participação das pessoas, que estavam bastante interessadas, conectadas com o tema. Acha interessante a forma de participação. Diz: a gente precisa ficar atento, ter isso em mente, é uma experiência comum vir gente para Soure, plantar este olhar de fora e nada ficar na comunidade, o “olhar folclórico”. Diz: temos que passar a sobreviver no tempo do projeto a experiência da residência artística, acha que havia dúvida em algumas pessoas que foram á reunião do dia 4 de março, que poderiam pensar que iríamos até lá parar retirar alguma coisa deles...

ENCAMINHAMENTOS:
ligar para casas
ir à soure ou dia 14 ou dia 16
enviar cartas à funarte
fazer projeto crass
fazer ofícios intitucionais
fazer lista de materiais às oficinas
fazer projeto gráfico, incluindo: ficha de inscrição, folder, cartaz...

(SINTETIZADO POR ISABELA DO LAGO)

IMAGENS DE SOURE
















© FOTOS: Francisco Weyl

RELATÓRIO DO ENCONTRO COM A COMUNIDADE DE SOURE DIA 4 DE MARÇO

Presentes:
Francisco Weyl - Rômulo Queiroz - Isabela do Lago – André Queiróz – Luiz Cláudio Peres Silva (Grupo de Teatro do Marajó – Grutema); - Paulo Alex Moraes – Nazaré Amorim (Instituto Caruanas do Marajó) – Josué Gonçalves Silva (Biblioteca Pública Municipal) – Rita Sheila Raiol (EMEF Dom Alquílio – Anderson Barbosa Costa – Ely Silva Teixeira (Grupo de Tradições Marajoara Cruzeirinho) – Olívia Teixeira – Graça Leal dos Santos – Maria de Fátima Pinto da Silva (Sociedade Marajoara de Artes) – Jocelma Figueiredo (ONG Sociedade Alternativa de Soure) – Eliane Cristina da Silva Sousa – Ana Lúcia Silva Favacho.


PAUTA:

1) APRESENTAÇÃO E DEBATE SOBRE O PROJETO RESIDÊNCIA E RESISTÊNCIA ARTÍSTICA EM PONTOS DE CULTURA: CONTRUINDO UM FILME COLETIVO EM SOURE (ILHA DO MARAJÓ)

IMAGENS - Reunião de 4 de março de 2009 em Soure








































































































































































































RELATÓRIO

Reunião de 26 de fevereiro de 2009
Início às 20:30 horas.
Presentes: Francisco Weyl - Rômulo Queiroz - Isabela do Lago – André Queiróz

PAUTA:
1) SEMINÁRIO (Apresentações de projetos das oficinas)

terça-feira, 10 de março de 2009

A vulva encantada do marajoassu

Depois da visita e reunião com as pessoas em Soure, percebi observando também a população, várias marcas do passado da opressão branca contra os caboclos na fala de um fazendeiro falido que queria nos alugar uma casa muito pequena por um valor sobrenatural, ele dizia sinicamente “só não alugo pra este povinho daqui, aqui ninguém presta. Faço um preço especial pra vocês que são de Belém”, e dizia isto como se não estivesse presente um idoso que trabalha pra ele, negro e nativo.
Outro ponto importante que observei foi a mobilização das mulheres, na reunião da prefeitura, eram a maioria, com olhares blasé e bases posturais afirmativas, do mesmo jeito vão à escola, carregam os filhos, falam com o marido detido (“trago cigarros? Amanhã não posso trazer comida...”), escrevendo poesias, enfim, nas terras marajoaras onde a história oficial registra um mundo de pescadores e vaqueiros há um cenário real de mulheres em ação com altivo poder de transformação.
Visualizei no campo do cruzeirinho centenas de mulheres tecendo uma gigantesca rede azul com teares manuais de bilros dourados debaixo daquele sol escaldante do meio dia. De noite, quando chovia havia muito fogo na rua da casa do vaqueiro Juvêncio onde outros vaqueiros trajavam ternos velhos e mofados, os pés descalços cada um, em fileira montavam búfalos feridos e cansados eram liderados por aquele velhinho de face enrugada e doce com a blusa alvinha cerzida de linha preta nos remendos até que as chuvas se avolumaram madrugada adentro inundando tudo, todos aqueles vaqueiros morriam afogados, as cabeças bubalinas com as bocas abertas pra fora d água pediam um socorro mudo enquanto atrapalhavam um grupo de turistas estrangeiros que procuravam os campos com seus digitais nstrumentos fotográficos, ávidos e loucos, queriam as fazendas. Sobre a água, crianças roxinhas-roxinhas, cacos de cerâmicas, canoas estilhaçadas, repteis, garrafas pets e pássaros mortos excrementos e flores.
Tudo afundando, virando limo no fundo do rio, e a cobra grande do paracauari observando de longe.
Estando no Marajó, quero falar com os velhos, ouvir os causos, tatear na fala antiga das pessoas os efeitos simbólicos da tal crise. Mas o que é a crise? Pra onde vai tudo que a água leva? Aquela mulher ao lado daquela delegacia faz oque da sua dor de solidão quando a noite esfria? Quando a grande maré seca como é que ela devolve tudo que engoliu? Os símbolos arquetípicos gravados na milenar arte do povo marajoara permitem supor que algum tipo de ritual em honra a uma grande deusa teve lugar na boca do rio Amazonas, antes da colonização européia
[1]. Uma misteriosa estatueta feminina de 30 centímetros parece ter tido um papel central nos rituais.
A tal estatueta, denominada pela estudiosa de “senhora das águas” apresenta o corpo faloforme, mas também em formato de peixe coberto por espirais vermelhas, pretas e brancas indicando o processo regenerador as águas. Um duplo portal circunda a vulva, que abre para uma dimensão desconhecida no interior da deusa, talvez uma passagem para a vida após a morte, comparando com outros símbolos.
A estatueta encontrada num local de cemitério data de cerca de 400 a.C. até 1300 d.C. (período q viveu ali a civilização marajoara Foi ela a construtora das centenas de aterros nas planícies alagáveis, transformando a paisagem da parte oriental da maior ilha flúvio-marítima do planeta. Sem instrumentos de ferro, sem roda, apenas com a força física e a vontade determinada).
Imagine que cada mulher e homem nobre da raça marajoara fazia um vôo após a morte nas asas da Coruja ancestral, hoje em dia a galera precisa usar ácido pra conseguir essas coisas.
Uma jornada nos espaços da noite, no fundo do aterro cemitério, agasalhados no
bojo da urna Coruja. A morte transformadora.
Acreditariam na volta dos mortos sob a forma de outro ser? As urnas de um metro de altura estão cobertas com símbolos de transformação, são verdadeiros “livros dos mortos” em ideogramas. Os símbolos arquetípicos marcaram os momentos decisivos do ciclo da vida-morte-vida para esses indígenas que recriaram a paisagem numa espécie de geografia xamânica.
Formados pelas chuvas abundantes que começam em dezembro, vastos lagos superficiais recobrem feito lençóis a planície oriental da ilha de Marajó durante seis meses ao ano, em média. São os braços líquidos e piscosos da Senhora das Águas envolvendo a terra e seus filhos, talvez venha daí a altivez da mulher marajoara de hoje, em busca do novo, do poder transformador gerado pela vulva da senhora das águas com seu duplo portal da transformação humana.
Mas se formos buscar simbologias nesta estatueta, ela nos dirá muito mais do que isto, inclusive aquilo que nem imaginamos que existe, a arte marajoara pré-histórica é um registro rude e belo feito no barro dos símbolos e das fórmulas de poder usados durante os rituais. As tangas femininas e os falos de cerâmica finamente ornamentados são alusões ao drama da recriação do mundo através da dança.
Bem, ela tem o formato aproximado de peixe, em outras culturas, podemos identificar o peixe como um símbolo bastante antigo do mistério da fecundação.“Parece que foi, inclusive, um símbolo da alma”, aponta Jung (1976, par.112). Um animal que mostra uma face sublime, tendo sido objeto de culto religioso na Síria, na Fenícia, no Egito. O papel que o peixe representa na tradição judaico-cristã teria começado justamente nessas antigas devoções.
Para um povo que se desenvolveu em torno do regime das águas, tendo que resistir e se adaptar ao temperamento da natureza com a força das águas, não é de se estranhar que suas crenças se originem dos seres aquáticos, hoje as águas é que nos levam até a terra sagrada do Marajó, águas são uma fonte inesgotável de riquezas sensações, fantasias e sonhos.
Estão associadas às emoções que, esquentando o corpo, intensificam os ritmos internos em ondas de intensidade variada, tanto na troca sexual quanto na briga de rivais. As marés sobem e descem, obedecendo aos ciclos lunares. Diz-se que a água é feminina. Ela flui e reflui, afirma e nega, condição pela qual mulheres e marés, assemelhadas, compartilham igual desconfiança masculina.
A água doce é mãe de mitologias, imagens de repouso e devaneio, interpreta Gaston Bachelard (1985). Enquanto o mar sensibiliza a pele com a aspereza do sal, arde nos olhos, queima como o sol, a água dos rios é suave. Permite um privilégio de banho, desejada, ansiada pelos caminhantes longe de casa. Nisso também, a fonte, o riacho, qualquer manancial de água doce se aproxima do simbolismo feminino idealizado, porque acolhe, nutre,regenera um sofrimento.
A visão unitária de mundo enquanto um todo orgânico que fundamentou a passagem dos antigos marajoaras resistiu a todos os grandes cortes políticos que aquela cultura sofreu com a colonização, com a exploração da terra na pecuária extensiva e com a globalização, ainda se fala nas lendas com seres aquáticos, mesmo que muita coisa tenha se perdido, mesmo que ainda persistam os usurpadores culturais, a Deusa senhora das águas ainda protege seus filhos com o poder da vulva regeneradora, por hora, há muito o que ouvir do povo marajoara até conhecermos o segredo histórico da resistência marajoara.
© ISABELA DO LAGO




[1] A Senhora das Águas na Amazônia
Lucy Coelho Penna, Ph.D. *
(Revista Junguiana Publicaçãoda Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Nº 18:2000, pág. 18 – 29.)




segunda-feira, 9 de março de 2009

música

todo som é musical
todo ruído é música
a música existe na gente desde o principio
desde do útero materno
canção primordial
o nada sendo silêncio é música
um emaranhado a principio de cores
e de vida
todo som é plástico
toda plastica sugere pode sugerir música
concretude microtonal
bailado de estrelas
escultura sonoras
busca essencial o próprio ser
um momento de livre execução
todo som é musical
toda música é ruído
a loucura da cidade concreto e carros
traseuntes e silêncios
canticos indefinidos
caixotes e gritaria
ainda assim digo
todo som é musical
todo ruído é música
toda música é ruído
toda música é plástica

o som da chuva
o som do vento
o som da terra
o som da mata
o som da água
o som do mar



andré leite




domingo, 8 de março de 2009

um olhar possível para a resistência e a água

cheguei no corredor no domingo dia 01 de março a noite
e a chuva também
água a noite inteira
no inicio da manhã chegamos até o porto
tomamos o navio lá pelas seis horas da manhã
aí foram umas três horas e meia de água
o rio tava calmo
a viagem até soure foi tranquila
nove e quarenta estavamos no hotel
e tome chuva
articulações e contatos
uma segunda bem agitada com poucos intervalos
e muita chuva
na terça um pouco de sol para castigar
mais correria e trabalho
e uma conversa sobre uma chuvinha
que parecia não ter fim
varias visitas e contatos
com pessoas organizações e entidades locais
visita ao curtume e uma chuvinha cheia de sarros noite a dentro
na quarta as visitas foram substituidas por uma
longa peregrinação em intervalos de sol e chuva
na busca de casa para alugarmos
alguns contatos positivos a respeito deste assunto
a tarde reunião no auditorio da prefeitura
e uma otima participação da comunidade
buscando abrir um maior dialogo
com o projeto
que se apresentou a mesma publicamente
a noite como de costume
uma chuvinha que parecia que não ia mais embora
uma rolê na orla
e de volta ao hotel
para novamente irmos ao encontro das águas
madruga de quarta para quinta chegamos na travessia da balsa
fazia frio
em seguida o barco e o retorno a belém
águas tranquilas
boa viagem de ida e de volta
som e quase silêncio das águas
da chuva e do rio
do bufalo e do cheiro de mato molhado
ou mesmo da canção noturna dos sapos
e grilos do marajó de soure
cidade sem lixeiras nas praças
e canteiros mas curiosamente limpa
todos esperamos uma grande viagem
na busca de som e imagem
imaginário e histórias
uma outra realidade é claro
para mim em particular
uma nova possibilidade
espero que para todos não
só para nós do projeto
mas principalmente para a propria comunidade
que assim como nós é claro precisa despertar
ou melhor já começou a despertar
e a buscar novas alternativas
para esta poetica sonora mutação


bem este é apenas um olhar possível para a resistência e a água no marajó em soure
cuidado com uma chuvinha
quem vem chegando
chegando e tomando espaço

abraços

andré leite